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Espetos para as vacas magras

October 6, 2012
Quem ainda se lembra quando começou essa onda, ou melhor, essa tsunami de tachas e spikes? É claro que a imagem punk-rock dos acessórios metálicos já existia há décadas. Entretanto, salvo engano, foi a Balmain que ressucitou seu uso numa atmosfera rocker por temporadas (inicialmente em 2009) até desembocar nas jaquetas hit cheias de metais e aplicações. E depois isso foi seguido pela Burberry com suas peças de couro cheias de espetos, a Versace também com muitas tachas – inclusive em sua parceria com a H&M, Louboutin que transformou sapatos em perigosas armas ao por spikes pela superfície dos calçados, entre outros designers

Com tudo isso, foi dada a largada para o uso desenfreado, e até indiscriminado, das tachas metálicas. Repentinamente todos viramos semi-punks e roqueiros desde a infância, carregando metais fossem em forma redonda, piramidal ou em espeto. Das roupas pulamos a todos os outros acessórios: bolsas cravadas, pulseiras, colares e tudo mais em que houvesse espaço para pendurar um pedaço de ferro, lá estávamos.

Partindo da idéia de que desde a minha adolescência sempre gostei dessa estética agressiva, como forma de extravasar uma brutalidade que se contrapõe à minha personalidade, curti muito toda essa inundação da tendência. Mas eu tinha quase certeza de que do ano passado não passaríamos levando tantas tachas grudadas ao corpo. Afinal de contas, essas peças com muitas aplicações não são tão neutras e versáteis, e portanto, como tantas outras febres, logo baixaria. Porém, me deparo em 2012 ainda consumindo e vendo uma grande oferta desses produtos.
Comecei então a analisar o porquê disso. Quem já estudou, ou foi atento o suficiente para observar a história da moda e a ciclicidade inerente a ela, sabe que ela é um bom termômetro sócio-econômico. A moda flui pelos sulcos deixados pelo momento em que vivemos. A criatividade é influenciada por todo seu ambiente, já que nem mesmo os estilistas vivem dentro de bolhas. 
Refletindo sobre o nosso cenário mundial atual, é muito latente a crise européia: todos os índices de desemprego sofridos até pelos países mais ricos do “velho mundo”, e consequentemente a série de protestos que temos visto. Não o bastante, ainda temos o efeito dominó disparado nos países orientais contra seus governos e ditadores numa avalanche de revoltas.

Protesto na Espanha contra corte na saúde
Manifestação em Paris acerca da economia
Confrontos na Síria 2012

E em instantes assim, de vacas magras e revoltas, sabe-se que a moda usualmente tende a se retrair. Ela no passado ficava jururu, com muitos tons de preto, cinza, bege. Peças austeras e de investimento seguro eram a proposta para combater a economia ruim.

Contudo, ironicamente não era disso que me lembrava das passarelas internacionais. Paradoxalmente, penso que estamos num momento muito maximalista: maxicolares, furniture shoes, muitas cores extravagantes, etc. Onde personagens como Anna Dello Russo e Daphne Guiness viram ícones contemporâneos de estilo. E assim, fiquei por alguns instantes sem entender esse contrassenso. 
Foi aí que me veio a lembrança das spikes. Acredito que elas representem todo esse momento em que temos que nos fortalecer para aguentar o tranco de uma crise européia, e ainda sermos revolucionários contra governos ditadores. E por mais que as tachas de metal denotem agressividade, elas não deixam de transparecer o maximalismo com seu brilho e exagero.
Avaliando então as últimas coleções de Christophe Decarnin para a Balmain, ficou muito claro que as ombreiras do Verão de 2009 era sinal dessa necessidade de uma atitude forte. Depois com o Verão 2010 surgem casacos militares ainda com ombreiras, novamente apresentando uma mulher guerreira e imponente. Em 2011 foi a vez de uma estética destroyed, com roupas rasgadas típicas de quem lutou uma guerra.

Obviamente, que neste caso minha perspectiva foi mais sobre a Balmain, mas sabemos (como já citei acima) como as aplicações metálicas se espalharam por outras grifes. Algumas marcas abordaram o uso de tachas de uma maneira mais branda, polida, mas considera apenas variação do que realmente representavam.
Talvez essa minha análise seja falha porque quanto mais nos afastamos de algum acontecimento no tempo, mais facilmente o entendemos e o avaliamos. Mas humildemente pensei em compartilhar minha perspectiva.
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