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Tentando entender a estética japonesa

November 27, 2012
Já comentei aqui no Garotos de Saia como admiro a liberdade estética asiática, como os conceitos de lá são diferentes, e como tudo isso é fascinante. Porém, até agora não conseguia formar uma explicação plausível para toda a visão contemporânea oriental de moda, comportamento, arte, etc.
Contudo, acessando o conteúdo online da Dazed and Confused (Dazed Digital) achei um artigo bastante intrigante que analisa o comportamento de consumo dos jovens japoneses. A cultura jovem nipônica é tida como líder na compra de moda vanguardista mundial, a até por isso o título da matéria deles é “Everyday Extreme”, em referência à forma diária de se vestir com peças extremas.

O texto de Dean Mayo Davis aponta que enquanto no Reino Unido as roupas de desfiles, consideradas com alto teor artístico são usados como forma de protesto, resistência ou celebração, no Japão elas são usadas cotidianamente como extensão personalística.
Junsuke Yamasaki, editora da Vogue Hommes Japan e da Dazed Japan, disse que a partir dos anos 2000 os japoneses começaram a entender a criatividade de novos designers, e que passou a ser comum então jovens  comprarem roupas conceituais, quase nada práticas, com o intuito de misturar com coisas vintage e  se vestir no cotidiano.
Tóquio se tornou então uma base forte para jovens estilistas, e que hoje têm seus estoques esgotados na capital japonesa, enquanto em suas cidades de origem nem conseguem nem abrir uma loja – formou-se um nicho de consumo de moda vanguarda existente apenas no Oriente.

Foto da revista Dazed & Confused; Kyary Pamyu Pamyu como modelo e styling de Nicola Formichetti

Yamasaki declara que “Nós japoneses não temos nosso próprio estilo em moda, exceto pelas roupas tradicionais, como o quimono, por exemplo. Então é por isso que somos flexíveis e não hesitamos em nos vestirmos de novas maneiras. É assim que aceitamos looks extremos ou de passarela em nossas vidas cotidianas. Olhe para a moda de Harajuku: eles têm milhões de cores e shapes em um look só, o que por vezes é mais extremo do que o que vemos nas passarelas! Eles geralmente misturam peças vintage, roupas usadas de desfiles que estão disponíveis a preços razoáveis, e roupas de jovens designers.”

Atualmente no Japão existe um culto às peças de desfiles, e há lojas pela Ásia dedicadas a vender conteúdos de arquivos de estilistas. O Japão, desta maneira, continua sendo uma encubadora de moda, da mesma forma que é a Central Saint Martin.
Com meu background e sangue japoneses (sendo neto de imigrantes), realmente concordo com a visão de  Junsuke Yamazaki. Se pensarmos que o Japão está do outro lado do globo, e que por centenas de anos não viveu interferência externa, é óbvio concluir que os conceitos de elegância e refinamento não são exatamente iguais aos pilares da estética ocidental. Penso inclusive que por lá não seja tão arraigada a noção de status intrinsecamente ligadas às roupas que vestimos por aqui, o que amplia a liberdade em moda deles.
E é essa a liberdade em vantagem que desfrutam os designers japoneses. Rei Kawabuko, diretora criativa da Comme des Garçons, uma das marcas mais vanguardistas e pioneiras na moda, disse em entrevista à WWD “Minha intenção não é fazer roupas. Minha cabeça estaria muito restrita se eu apenas pensasse em fazer roupas. Quanto mais as pessoas temem quando vêem uma nova criação, mais feliz eu fico.”
Ainda acrescentaria à explicação de Yamazaki da Dazed & Confused que; depois da Segunda Guerra Mundial, o Japão se tornou quase que uma colônia da Europa e principalmente dos Estados Unidos. Eles sofreram uma forte influência ideológica do ocidente. Fato curioso, inclusive é que logo após a Grande Guerra, a bandeira de batalhas japonesa foi banida pelos países vencedores permitindo-se ao Japão o uso apenas da bandeira branca e vermelha, atualmente conhecida. E para um país que tinha suas fronteiras absolutamente fechadas comercialmente e culturalmente, esse foi um grande choque. Dentro de um curtíssimo espaço de tempo inundou-se o país de mercadorias e ideologias ocidentais, e que fizeram soar como um grito de liberdade. Portanto, devido à esse impacto cultural havido, a forma como os nipônicos digeriram todas as informações foi impactante, crua e repentina. E até hoje me parece ser assim a maneira como eles conseguem absorver in loco, como esponjas, os conceitos de moda mais extremos, jogando-os direto em seus dia-a-dia.

Bandeira de guerra japonesa até a 2a GM

Também fui buscar ver os trabalhos da Kyary Pamyu Pamyu, tão elogiada por Nicola Formichetti na publicação #Fantasia da Dazed & Confused e fenômeno na música japonesa. Ao ver o vídeo mais popular da cantora, da canção Ponponpon, me ocorreu uma sinapse que ligou o clipe a todo esse revival dos anos 90 na música, na estética e na moda. O clipe da japonesa tem muito chrome key, além de closes eventuais em “ursinhos carinhosos” e “little poneys”. Se formos ver a quantidade de chrome key utilizado em Ponponpon, daria para tentar relacionar de alguma forma com as apresentações mais recentes de Rihanna no SNL e Azelia Banks. (Aqui, não me refiro à estética seapunk, mas apenas ao uso dos fundos verdes). Isso me leva a pensar que o oriente é visionário, somehow.

(obs: aos 1:53 no vídeo aparecem ienes ¥, moeda japonesa)



Sabe-se que quando algum artista, estilista ou designer lança algum conceito forte, leva-se anos para que ele se dissolva em pequenos pedaços mais comerciais/comerciáveis até que atinja toda a massa. É como pensar em uma pirâmide em que na cúpula temos esses criadores, e que suas idéias vão descendo e se espalhando vagarosamente por desfiles, lojas de luxo, boutiques, até chegar na base onde o alcance à população e o acesso é maior, como em lojas de departamento ou mesmo fast fashions.  
Nessa linha de raciocínio, os asiáticos absorvem todas as informações de maneira integral e inalterada desde o topo, e depois de algum tempo, enquanto aqui ainda estamos digerindo parceladamente os fortes conceitos, eles já vivenciaram tudo à frente. 
Vamos para Harajuku sermos fashion freaks? To topando fácil! 😉

(Fontes: 
http://www.dazeddigital.com/blog/article/15117/1/everyday-extremes
http://www.vogue.co.uk/news/2012/11/20/rei-kawakubo-interview—collections-and-inspiration)

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No Comments

  • Reply Guilherme Takahashi November 28, 2012 at 10:47 am

    Sim! essa onda seapunk ta indo bem mais longe do que imaginava no começo… Achei interessante o uso do chrome key que eu julgava tåo tosco, e agora em evidência como algo cool e nostálgico. E no post só tentei linkar um pouco tudo isso, mas nem sempre há essa conexão, necessariamente. Hahhhaha

  • Reply Vinícius November 28, 2012 at 9:50 am

    Beeem legal esse post. os japoneses são malucos! lá a cultura pop trata de temas impagáveis para nossos padrões ocidentais pra não falar das subculturas, é só dar uma checada no tumblr pra ter uma noção do quão insana a linguagem visual e artística dos japas pode ser. Gosto quando misturam inocência e sexualidade gore (de leve).

    Já a questão ai dos anos 90 acho que veio mais do ocidente, desde 2010 a gente vê essa estética tecnológica/obsoleta no tumblr. Eu acredito que seja uma forma nostálgica e lúdica de reviver os anos 90, quando a tecnologia era apenas divertida e não um mecanismo de alienação. já a Azealia está flertando com o seapunk desde sempre, na america do norte isso está bem forte.

    parabéns pelo texto, bem legal mermo :B

  • Reply Guilherme Takahashi November 28, 2012 at 9:15 am

    Wow, esse livro parece ser muito bom! Já vou adicioná-lo à minha lista de compras. Já faz algum tempo que quero alguns livros e esse vai ser um deles agora 😉
    Obrigado pela dica, Tatyana

  • Reply Tatyana November 27, 2012 at 10:38 pm

    Que post mais lindo <3
    Esses tempos atrás li um livro que talvez te interesse caso queira se aprofundar mais no assunto.
    Esse aqui é o link pro google books http://books.google.com.br/books?id=zk5png7Z4cQC&lpg=PP1&authuser=1&pg=PP1#v=onepage&q&f=false ^^

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