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Geração narcisista (GIRLS)

March 2, 2013



Outro dia, entre um blog e outro, li uma matéria que falava sobre o seriado Girls da HBO norte-americana. Nela, Hannah Horvath e Lena Dunham foram apontadas como narcisistas. A primeira, por ser obcecada por si mesma – afinal de contas seu maior objetivo na vida é publicar um livro com suas próprias memórias – além de constantemente só falar de si e se importar com seus sentimentos, opiniões, perspectivas e acontecimentos. Já a segunda, por escrever histórias cuja protagonista é ela mesma e insistir em aparecer nua em todos os episódios.


Confesso que me tornei fã da série. E apesar de toda a identificação que tive logo no primeiro episódio, por fazer parte dessa geração de 20 e tantos anos ainda sem um rumo certo na vida, não tinha pensado em Girls sob essa ótica.

Não acredito que o fato de Lena despir-se em vários episódios seja necessariamente narcisismo. Penso que isso tenha a ver mais com a intenção de evidenciar uma vulnerabilidade contraposta à superficial intimidade vivida pela personagem; bem como ir contra os padrões atuais da beleza televisiva e mostrar alguém com um corpo mais comum e tangível com a realidade.

Contudo, me parece razoável afirmar que não apenas Hannah, mas quase todas as personagens tem uma grande parcela de egocentrismo prejudicando umas às outras. Por vezes me parece que elas vivem perto, mas por estarem presas em seus próprios universos, não conseguem se enxergar. Perderam a capacidade de compreensão e tolerância. Marnie e Hannah trazem sua amizade por um fio porque apenas descontam seus insucessos uma na outra, sem nenhum acolhimento. Já Jessa estava tão envolvida em si mesma que mal conseguiu enxergar as discrepantes diferenças entre si e seu marido relâmpago. E Shoshanna, bom, Shoshanna isShoshanna.

E isso não seria exatamente o que temos sofrido também? Somos o olho de nossos próprios furacões sem a chance de uma proximidade amistosa, inofensiva? Atados ao individualismo narcisista?

Diariamente abro meu Facebook ou qualquer outra rede social e me deparo com obscenidades da vaidade e do narcisismo.  Cenas que ultrapassam o bom senso e a etiqueta, tamanho o foco no umbigo próprio. Celulares apostos e apontados para o espelho, semi-homens descamisados oferecendo a petulância de inseguranças cobertas por músculos, gente se autopromovendo despudoradamente, é a pose de quem quer ver refletido o que não é. A mesma tecnologia que nos disponibiliza conexão com pessoas ao redor do mundo todo é a que nos faz mais perdidos em nós mesmos.

Existe um movimento inverso curioso. Há décadas atrás havia quem cuidasse da vida dos outros em tom de intrometimento. Fofocas, comentários, falar pelas costas eram um mal tenebroso. E saber da vida alheia de quem estava do outro lado do mundo era intrigante. Havia um voyeurismo no ar. Mas veio a internet e noticiar o outro deixou de ser objeto de interesse tão precioso. O hedonismo cresceu, trouxe consigo o individualismo, o narcisismo e o egocentrismo. Assim, agora é muito mais atraente a ideia de ser o alvo dos antes temidos comentários e fofocas. Vide as lições deixadas por Gossip Girl. Do fetiche de voyeur passamos a querer gravar sex tapes tamanha a obsessão consigo mesmo e com a própria imagem.

Somos uma geração narcisista. Carentes de um olhar cuidadoso em meio a tantos que insistem em apenas se enxergar, que acabamos procurando consolo em curtidas, acessos, visualizações.

Isso só me prova duas coisas: que Girls está no caminho certo – retratando os sintomas dos nossos 20 e poucos anos de forma fiel – e que Lena Dunham não é mais narcisista que nenhum de nós – e pelo menos sua exposição tem um propósito maior.


PS: Não estou criticando, uma vez que minha autoestima também é frágil e abalável, e curtidas são bem-vindas e reconfortantes.

Se você assiste o seriado e ama (ou o odeia), comente!

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No Comments

  • Reply Kailey July 14, 2014 at 9:30 pm

    Me dull. You smart. That’s just what I nedede.

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