Diário, Estilo

Expectativas

May 23, 2015

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Essa semana aconteceu um episódio interessante. Uma daquelas situações que na hora você fica meio constrangido, não sabe exatamente como reagir, e depois se vê com coisas para pensar.

Quem me conhece sabe que não dispenso uma montação, ainda que leve, mesmo pra ir trabalhar. Porém, não é todo dia que tô na vibe e a elaboração dos looks vai variando conforme meu humor.

Bem no meio da semana, tive um aniversário para ir às 21h30. Isso queria dizer que eu sairia do trabalho, iria pra casa, pra depois ir ao bar onde seria a comemoração. Mas sempre depois das 18h viro abóbora e tudo o que quero é morrer no sofá. Por isso, pensei em algo confortável pra usar o dia  todo e que não precisasse trocar depois. Meu pitstop no apartamento seria só pra retocar a maquiagem e comer alguma coisa. E naquele dia, a real era que eu não tava com saco de subir no salto, usar calça apertada e nem ficar segurando clutch. #revolts

Vesti um boyfriend jeans rasgadinho, uma camiseta branca lisa, meu tênis iate de onça e um casaco preto oversize de duas texturas. Era algo bem básico, com um toque podrinho e tinha animal print.

A festa tava boa, bons drinks e muita risada. Fiquei meio alegre demais, mandei Whatsapp pra quem não devia e tudo mais que vem naturalmente com o álcool… Na hora de me despedir da galera, fui dar tchau pra um amigo da aniversariante, que eu tinha visto brevemente só umas duas vezes até então. E ele disse: “Hoje tava esperando mais de você”. Eu, meio sem entender, olhei com cara de interrogação e pedi detalhes daquela queixa. Então ele explicou que eu sempre apareço mais montado e que isso é importante, pela conotação política e o impacto social em termos de preconceito gay e tal. Ou seja, segundo ele, eu choco a sociedade e isso é bacana. Fiquei sem saber o que responder, e pra não deixar o menino no vácuo, devo ter soltado só um “Ahhhhn”. E aí, ao final, em meio ao som alto, ouvi ele meio que agradecendo por eu ser travesti e dar a cara à lampadadas – não com essas palavras exatamente, mas algo por aí.

Fiquei pensando bastante depois, dentro do táxi, voltando pra casa. Sempre soube das bandeiras que eu levantava simplesmente por sair de make e bolsa no ombro. Nunca fui totalmente ingênuo ou inconsciente quanto a isso. Até porque, quando se é assim, ouve-se merda de todo o tipo. Você se torna um alvo fácil de covardes dentro de carros passando e que acham engraçado gritar algum insulto pra “bichinha” na rua, por exemplo. Mesmo dentro de casa sofri muita resistência dos meus pais quanto ao meu rímel, aos meus braceletes, meus slippers e por aí vai. Mas ao final do dia, acho legal ser essa pessoa que faz quem tá andando na rua pensar um pouco sobre gênero e androginia. Porém, nunca fiz por militância. A vida toda, meu estilo sempre foi algo mais orgânico e visceral, parte da minha construção individual de personalidade. Pra quem é entendido de moda, sabe de todas as portas de autoexpressão que as roupas podem trazer.

Contudo, naquela breve conversa no bar parecia que eu tinha me tornado refém de uma persona criada por mim mesmo. Parecia que eu havia instigado a expectativa alheia. Será que virei um personagem, uma caricatura de mim mesmo? Ainda não sei, mas tenho certeza de que a cada dia me sinto mais confiante com meu estilo e que tudo bem dar um descanso pros paetês, de vez em quando.

-G

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