Diário

Por trás de muros

November 10, 2016

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Acordei com um Whatsapp que exclamava “socorro!”. Era em um grupo de conversa de amigos. Ansioso para saber quem pedia ajuda, abri o aplicativo e me deparei com a notícia que precedia o S.O.S: “Trump ganhou as eleições. Socorro!”, dizia.

Incrédulo, esfreguei os olhos e olhei novamente para a tela do celular. Eu havia lido a mensagem certa. Ainda em negação, procurei o primeiro site de notícias para checar o fato. Real_oficial, o protagonista do reality show “O aprendiz” tinha vencido as eleições presidenciais norte-americanas enquanto eu dormia. “Mas como?” me perguntava. Eu tinha uma sensação de que a vitória de Hillary era certa. Uma mulher à frente de uma das nações mais poderosas do globo, logo depois do primeiro presidente negro dos EUA, me parecia ideal e inquestionável. “É claro que as pessoas estão prontas para isso. Não é possível que o eleitorado branco e de baixo nível de instrução (apontado como o maior grupo de apoiadores de Trump) fosse a maioria votante”, eu pensava. No entanto, pelos colégios eleitorais e seus delegados, o discurso misógino, xenofóbico, intolerante ganhou.

Inconformado de não ter sequer considerado o risco da vitória republicana, fiquei me questionando sobre minha miopia. Será que eu estava em um universo paralelo de psicose, apostando minhas fichas em Hillary? A conclusão a que cheguei não foi surpreendente. Minha percepção havia sido afetada. Eu já sabia que os algoritmos das redes sociais filtravam conteúdos condizentes com nossas preferências e interesses. Assim, é claro que todas as manifestações de apoio democrata que cruzavam minha timeline, seja do Facebook, do Instagram, ou até do Twitter, não eram por acaso e não condiziam necessariamente com a realidade.

Não sei se é possível dizer que hoje vivemos tanto no mundo virtual quanto o fazemos no mundo real. (Pode ser que varie de acordo com a geração, já que as mais recentes são mais integradas às novas tecnologias). No entanto, acredito ser indiscutível que as redes sociais nos têm tornado cada vez mais alienados e individualistas. Mesmo em espaços públicos, como o ônibus, por exemplo, gosto de escutar a minha música no meu fone de ouvido e do meu Spotify. Ou apesar de dividir a conta do Netflix com a família, tenho o meu perfil para poder ver as minhas séries e ter a minhas recomendações customizadas. No Facebook, ler textão daquele amigo reaça é incômodo e dou unfollow. No Instagram, o número de curtidas da selfie demorada e com a hashtag #nofilter satisfaz a minha necessidade de validação e supre instantaneamente inseguranças freudianas.

Por essas e outras me preocupo com os muros que estamos erguendo entre nós mesmos – mexicanos ou não. Muros para tapar as opiniões divergentes das nossas, com posicionamentos diferentes. Não digo que temos que manter perto ao peito gente homofóbica, racista, misógina, xenofóbica, machista. Não é isso. Contudo, não tem como achar que a minha bolha, recheada de amigos com capacidade para a empatia ou que fazem parte de minorias se tornou o padrão lá fora. É ingênuo demais, é cego, é alineado. As eleições norte-americanas bem como o nosso Congresso Nacional brasileiro, com fundamentalistas evangélicos, me fazem repensar nossos progressos em causas LGBT, pautas feministas, em direitos humanos. Será que realmente caminhamos tanto assim? Ou a miragem é grande e ainda devo me preocupar para não sofrer nenhum crime homofóbico na rua?

Agora, sinto que fui iludido. Não dá para confiar na minha timeline, que parecia tão convincente quando me mostrava Rihanna, Katy Perry, Lady Gaga, Anne Hathaway, Lena Dunham, exibindo suas intenções de voto a Hillary Clinton.

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