Diário

Barbie para meninos

November 24, 2016

 

 

 

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A boneca mais famosa do mundo, que foi o ideal de beleza e sucesso de muitas gerações de garotas, passou a ser vista como parte de um padrão feminino opressor, e agora tem se atualizado. Sinais da tentativa de contextualizar a Barbie no século XXI é que a Mattel, marca do brinquedo, criou colegas de diferentes nacionalidades, fez alguns modelos com o corpo mais próximo da realidade (a.k.a. menos magras), fechou parceria com estilistas bacanas e, ano passado, pela primeira vez, colocou um menino na sua propaganda.

Eu estava revendo alguns vídeos no YouTube e me deparei com o comercial da Barbie Moschino. A boneca tem peças da grife italiana que ficou badalada com o designer Jeremy Scott na direção criativa. O estilista ganhou os holofotes pelo alto teor de cultura pop em suas coleções, além de já ter gerado muita polêmica pelo senso de humor questionável ao criar roupas que levavam o logo do McDonald’s ou brincava com remédios controlados.

Na campanha da Barbie Moschino, as crianças usam falas um tanto afetadas, com agudos e entonações que supostamente seriam para denotar o fashionismo mirim. Não sei se isso me agrada, honestamente. Crianças cultuando marcas de roupas caras não me soa uma boa ideia.

No entanto, o lado positivo é que um garoto é mostrado brincando de Barbie! (Uhuuulll). Fiquei feliz em ver o comercial porque só Deus sabe o quanto eu queria ter tido uma boneca quando era criança. Mas, obviamente, o binarismo de gênero vigente na cabeça dos meus pais, da família toda e da sociedade, não me permitiram ser feliz tão cedo.

Certa vez, eu em meus 5 ou 6 anos de idade, fui brincar na casa de um amiguinho depois da escola. Quando cansamos de ser super-heróis que empunhavam espadas, sugeri dar um tempo com as bonecas da irmã mais velha dele. Quando vi aquelas Barbies na minha frente fiquei extremamente empolgado. Peguei uma nas mãos ainda olhando para os lados, para ter certeza de que nenhum adulto se aproximaria para me tirar a alegria. A noção de que aquela brincadeira era proibida já havia se instalado em mim. E foi justamente enquanto eu  e meu amigo ainda montávamos a casa em que a boneca viveria que a mãe dele chegou. Ela, condizente com o machismo vigente, soltou: “Ahhhh, isso não é para menino. Vocês não podem brincar de Barbie. Guardem isso e vão pegar outro brinquedo”. Chateadíssimo, desolado, perdi qualquer empolgação. Ainda lembro que senti vergonha por ter sido pego com algo inapropriado para mim. No restante daquela tarde só tive vontade de ver tv e depois ir embora para minha casa.

Aqueles eram os anos 90. Desconstrução das barreiras de gênero, luta contra o preconceito e politicamente correto? Não, não havia. A Rainha dos Baixinhos era totalmente erotizada (Xuxa usava uns maiôs asa delta com botas de verniz até as coxas – quase uma fantasia BDSM) e tinha doce para crianças chamado “Cigarrinhos de Chocolate”, com um menino fumando na embalagem, por exemplo.

O resultado do episódio foi que encontrei consolo nas bonecas das personagens dos X-Men. Elas eram superpoderosas, lutavam lado a lado com heróis musculosos sem ficar para trás e ainda arrebentavam vilões. Tive uma coleção: Tempestade, Fênix, Vampira e Psylocke eram algumas das figuras de ação que faziam meu dia feliz. No final, acho que foi até mais saudável do que ter bonecas princesas, professoras, babás ou donas de casa.

Mas de qualquer forma, hoje fico contente em ver também que a própria Barbie, real_oficial, se propõe a ser boneca de um garotinho fofo, todo poderosinho, com um corte de cabelo parecido com o de Jeremy Scott e que diz: “Moschino Barbie is so fierce!” enquanto pendura a bolsa de brinquedo.

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