Diário, Estilo

Barrado no provador

November 8, 2016

Barrado no provador - Gui Takahashi

Desde que descobri a seção de roupas femininas e topei ser eu mesmo, nunca mais parei de comprar na arara delas. Sim, leva um tempo para você se sentir confortável, perder a vergonha e se esbaldar. Mas uma vez que acontece, é uma delícia. Até hoje me acho ôsada quando peço para a vendedora da loja alguma peça de menina, mesmo que ela não fique chocada e nem dê a mínima para o que eu vista. Isso, queridos, é o melhor dos cenários. Já teve vez da atendente me olhar com um sorrisinho preconceituoso nos lábios, tipo Maísa e o balão rosa do João. Vez de ter fofoquinha e burburinho por motivo de: “A bichinha vai provar o blazer de paetês!”. E, sim, a bicha foi provar. Ou, pior, já fui barrado no provador.

A primeira vez que aconteceu foi em uma viagem à Argentina. Eu estava com uma amiga, batendo perna pela Avenida Santa Fé, badalada pela quantidade de lojas em Buenos Aires. De longe, vi uma calça que queria muito e não achava no Brasil. Era a época das listras verticais p&b, lembra? (Alô 2013!). Entrei animado, como criança em loja de doces, perguntei o preço e pedi para ver. Entusiasmado, fui seco querendo provar. Até a vendedora me dizer: “No podés, el probador és solamente para mujeres”. Fiquei constrangido, sem saber o que fazer. Afinal, estava em outro país e desconhecia meus direitos em terra porteña. No entanto, me perguntei: “Não foram eles os pioneiros na legalização do casamento homoafetivo na América do Sul?”. Sim, seria a resposta, mas imagino que como nós, os argentinos também são latinos e católicos, o que pode ser traduzido, genericamente, em uma sociedade machista.

Comprar calça sem experimentar é bem complicado. Tentei medir colocando na frente do quadril, na largura da panturrilha e todas outras partes que são mais difíceis no meu corpo, numa tentativa de despertar a empatia e a solidariedade da vendedora. Em vão. Ela não se comoveu com meu drama. Vítima da moda que sou, acabei levando, mesmo sabendo que não deveria ter cedido. Aquela marca, de política não-inclusiva, não merecia meu dinheiro.

Depois disso, já de volta ao Brasil, algo parecido aconteceu de novo. Fui a uma loja em um shopping prestigiado de São Paulo e quis provar algumas peças. Dessa vez, um shorts de couro caramelo e uma bermuda de alfaiataria azul Klein. Pedi para a atendente pelo provador e ela disse: “Sinto muito, mas nós só temos provadores femininos e a loja não permite que homens entrem”. Nunca me senti tão hómi na minha vida! Na hora de ser considerado menos forte, menos capaz, menos gente por conta da minha feminilidade, ok, sociedade. Porém, no momento de ter um atendimento bacana, dizem que sentem muito. Na tentativa de explicar que eu não atacaria nenhuma cliente que estivesse nas cabines, soltei: “Mas moça, eu sou gay”. Ela, desconsertada: “Entendo, mas é a norma da loja…”. Pelo pesar na voz, parecia que a vendedora realmente não estava contente em me vetar o provador. A existência da cultura do estupro e a falta de compreensão do espectro de gêneros eram assuntos a serem compreendidos pela direção da marca, não era culpa dela. Vi que o mais inteligente a se fazer seria formalizar uma reclamação na gerência ou reportar diretamente à marca por e-mail ou algo similar.

Já desanimado com a repetição do constrangimento, fui devolver as peças. Porém, a mesma vendedora voltou e me chamou: “Acho que tem um jeito de você experimentar as roupas, vem comigo”. Segui ela até a seção infantil, onde me apontou o provador das crianças. Fui feliz, agradeci a moça, as peças deram certo e comprei. Depois, procurei o site da marca e enviei um e-mail fazendo a reclamação.

Passar por essas experiências foi incômodo, mas ainda não se compara a muitas coisas que se ouve na rua. Por isso, se você experimentou algo similar e deu show, fez barraco e arrasou, tamo junto! Eu decidi não reagir assim porque meu perfil é mais reservado e quieto. Só que acho importante também afrontar de forma incisiva o preconceito e o machismo. A gente tem que se lembrar que muitos dos direitos LGBT não foram conquistados só com conversa, arco-íris e coração. Também precisamos lutar muitas batalhas.

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