Diário

Bicha com orgulho

November 17, 2016

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Outro dia estava escrevendo um post aqui e pensei em usar na frase as palavras: “bicha sem vergonha”. Minha intenção era comentar sobre ser gay sem se sentir envergonhado, constrangido ou com medo. Porém, a combinação das palavras “bicha” + “sem vergonha” possuem uma conotação tão carregada de estigma e preconceito que me pareceu impossível fugir da interpretação vulgar.

Chamar um gay de “bicha” é ofensivo. É uma expressão usada para diminuir, invalidar, desdenhar e desaprovar uma pessoa pela sua identidade sexual. No entanto, precisamos começar a usá-la sem medo para podermos resignificá-la com um sentido positivo e até de elogio por si só. Quando nós, bichas, alvos de ofensas tomamos a palavra e a tornamos nossa, nos apoderamos dela e afastamos a conotação negativa. Assim, agressão acaba. Tirar o potencial agressivo de um termo que tem sido usado para nos atacar e torná-lo uma ferramenta de empoderamento está em nossas mãos.

Algo similar aconteceu com “queer“na língua inglesa. Desde o início do século XX a palavra era usada de forma pejorativa para definir homens de trejeitos femininos, que fugiam das limitações do binarismo de gênero, ou até mesmo gays passivos. Já na década de 80 a comunidade LGBT norte-americana começou a usar o termo readequando-o com um sentido positivo. Ainda discussão ao redor da palavra, pois existe toda uma geração que foi xingada e condenada de “queer” e, portanto, não a reconhece como algo positivo. No entanto, o debate tem esfriado ao longo dos anos e acredito que seja uma questão de tempo para que reste apenas o lado bom do termo.

Tenho tentado aceitar com mais tranquilidade quando gritam para mim (de algum carro passando covardemente): “Bicha!” ou “Veado!”. Afinal, são constatações verdadeiras e que não deveriam me ofender, exceto pelo tom agressivo de desprezo que normalmente vem junto do berro. “Sim, sou uma bicha fabulosa e veado para caralho”, logo penso. Mas um belo dia, fui pego desprevenido.

Eu voltava à noite para casa à pé. Ao passar em frente a um bar na quadra do meu apartamento, escutei um rapaz comentar com seu colega de breja: “Nossa, que bichona!”. O tom era de quem se sentia legitimado o suficiente para dizer aquilo em voz alta sem medo de ser repreendido e sem qualquer risco de ficar constrangido. (Até porque, quando é que um homem cis, branco e de classe média alta sente constrangimento? – Amém, sister!). Assim que aquelas palavras bateram nos meus ouvidos, me senti extremamente ofendido. Puto da vida, entrei no prédio. Depois que meu sangue se esfriou, tentei analisar por que aquela fala ainda tinha o poder de me machucar, como uma bolada espalmada no peito. “Isso não deveria mais mexer comigo. Cresci tanto, me sinto tão mais seguro de mim, confiante, e já passei por tantos episódios parecidos…”, pensava com meus botões. Em seguida, como num estalo, percebi que o meu problema estava no aumentativo “bichona”. Se tivessem se referido a mim como “bichinha”, eu acataria mais tranquilamente, já que o diminutivo combina mais com meu perfil twink delicado. Porém,”bichona” fez me imaginar ogra, troglodita, caminhando com dificuldade sobre a bota (com 5 cm de salto) que eu estava usando. Me chamarem de bicha? Foda-se, sou mesmo! Mas criticar como ando no salto… Isso me incomoda e me deixa puto.

E você? Já passou por algum episódio parecido? Ser chamado de bicha ainda te incomoda?

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