Diário

Era cilada: 40 anos no armário

December 13, 2016

 

Decidi contar um pouco da minha vida amorosa – ou da falta dela. Como o título dá pistas, não é porque achei o homem certo nem porque tive relacionamentos brilhantes (se é que existem). Na verdade, quero compartilhar histórias que me fizeram perceber, a duras penas, um mundo ao meu redor bem diferente do que eu imaginava e gostaria que fosse.

Depois de uma semana trocando mensagens mornas de whatsapp, topei sair com um cara. Com pouco mais de 40 anos, ele parecia ter seu charme. Não vou negar que faltava um pouco de humor apurado, do tipo que me fizesse rir espontaneamente, ao invés de provocar sorrisos de maxilar travado. Marcamos o encontro em um bar retrôzinho que eu nunca tinha ido, mas estava um fim de provar.

Ele chegou atrasado e na hora de nos cumprimentarmos rolou aquele clássico constrangimento em que você não sabe se vai para o abraço enquanto o cara estende a mão ou se acena de longe para não correr o risco. Isso sempre é um ponto alto do primeiro date... Acho irônico pensar que o cara às vezes se acha tímido ou macho demais para dar oi com um abraço e dali 30 minutos ele pode estar te chupando.

Superada a fase inicial, começamos um papo furado sem entusiasmo. Num gesto de esforço para evitar meu sono, perguntei como foi a experiência dele de sair do armário. Com mais de 10 anos separando nossas datas de nascimento, imaginei que pudesse haver uma história interessante, de gerações diferentes.

“Não precisei dizer nada para meus pais.”, ele respondeu em tom casual. Achei estranho. Há quem defenda a ideia de que não devemos nos anunciar gay, partindo do princípio de que ninguém se assume heterossexual. No entanto, esse é um discurso atual demais e que não sei se funcionaria nas décadas de 80 ou 90. Além disso, mesmo hoje, vivemos em um país careta onde ser gay ainda é visto sob muito preconceito.

Ele continuou:

— Eu tive um relacionamento de 7 anos e morava com meu ex. Meus pais sempre iam nos visitar de domingo e sempre foi tranquilo.
— Mas você abraçava seu ex-namorado na frente de seus pais, por exemplo? – indaguei disfarçando meu ceticismo com aquela história.
— Ah, aí também não. Não acho legal ficar pegando alguém como se estivesse na balada …
— Calma lá – interrompi o moço – uma coisa é a pegação em balada. Outra coisa é um gesto de carinho, em casa, como passar o braço ao redor do seu namorado. Tô falando de abraço, isso todo mundo faz.
— Não, nunca fiz isso porque não acho necessário e sempre respeitei muito meus pais. Eu e meu ex tínhamos tempo para fazer essas coisas sem meus pais precisarem ver.
— Mas não é desrespeito, é normal, pessoas heterossexuais fazem isso o tempo todo. É uma expressão de afeto – insisti passionalmente.
— E eu também tenho sobrinhos pequenos, acho que eles não precisam saber o que o tio deles é.

Nesse momento eu pensei: “Desisto. Melhor ficar quieto porque não vou ser eu que vou mudar esse cara e desconstruir crenças”. Pisei no freio das minhas argumentações e fiz que concordava acenando com a cabeça.

Juro que me senti muito mal ouvindo aquele monte de justificativas dele por vários motivos: a) O cara negava para si mesmo que nunca tinha saído do armário, fingia que não precisava e preferia continuar se escondendo; b) Ele acreditava que expressar afeto ao companheiro na frente dos outros é desrespeito e quem o faz é vulgar; c) Escondia que é gay para sobrinhos, que ao crescerem iriam entender que ser viado é errado porque o tio deles levou uma vida toda clandestina por conta da identidade sexual.

Sei que o processo de se assumir é muito pessoal e particular. Não estou desmerecendo as dores do moço. Mas acho que um gay pensar assim só ajuda a perpetuar o preconceito sob tanta hipocrisia e mentira. Ele realmente absorveu toda uma vergonha que disseram que ele deveria sentir.

Depois da conversa, pedimos a conta e voltei para casa sozinho, mas aliviado de poder ser eu mesmo na cara dura.

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