Diário

Era cilada: O cara casado

December 30, 2016

 

Se houvesse a encarnação de um para-raios de homens com esposas provavelmente esse ser seria eu. Não foram poucas as vezes que fui enganado por enrustidos que escondiam a aliança. Também não é raro eu chegar no date ou no Grindr com a pergunta na ponta da faca: “Você é casado, namora ou está em algum tipo de relacionamento?”.

Já gastei horas refletindo sobre por que eu atraía homem comprometido. Cheguei a me culpar, imaginar que talvez transparecesse permissividade para marmanjo casado pensar que tinha vez aqui. Mas minhas conclusões só apontam para o preconceito e o machismo que nos cercam, não para mim.

Sei que se assumir ainda é complicado. Não estou menosprezando o processo, frequentemente doloroso. Tanto eu quanto um grande acervo de filmes LGBT entende que muita gente não consegue se libertar, acaba negando desejos, vive uma vida hétero com direito a esposa e filhos até se apaixonar por outro homem e ter a coragem para eclodir do ovo gay. Mas não é desse cara que estou falando. Me refiro ao tipo que objetifica você só para satisfazer uma ereção. Aquele que fica todo risonho com uma travesti no colo, trancado em um quarto de motel, mas que na rua cospe em todas elas. O que só quer sair às escondidas de casa para trepar sem perder a imagem de maridão, paizão, provedor viril. É o cara que se acha superior a tudo que é gay. Afinal, fora da cama ele se acha bom demais para estar com uma bichinha, fazendo viadices.

Envolver-se com alguém assim é tóxico porque muitas vezes eles se confortam nas inseguranças de gays vulneráveis. Eu já fui um viadinho de autoestima zoada e que acreditava que merecia migalhas de atenção vindas de gente bastante homofóbica. Minha necessidade por me sentir desejado era tamanha que era ok ficar com alguém que quisesse me esconder. Quando o enrustido percebe que você não é abertamente gay ou que ainda não se sente confortável com isso, ele pressupõe que você não vai comentar com ninguém o affair. E esse sigilo é ótimo para quem quer a foda sem perder o status. Cilada total com cheiro de relação abusiva!

Vale dizer que meu incômodo não tem nada a ver com quem está em um relacionamento aberto e é assumidamente bissexual ou gay.

Me chateia é quem acredita que vou embarcar em uma vida dupla, manter sigilo, fazer a discreta, trepar na clandestinidade e voltar para o armário.

Quinta-feira à noite meu celular apitou. Era o Hornet. Um cara com uma foto distante, em p&b e de óculos escuros tinha mandado um “oi”. Abri o perfil e não havia informações completas. Tudo me parecia bem nebuloso. Mesmo assim, curioso, respondi. A conversa fluiu de maneira superficial, mas acabei recebendo retratos nítidos do moço.

Marcamos de sair. Na hora de decidir onde iríamos rolou um desconforto. Começou a chover justificativas dele para não nos encontrarmos em nenhum lugar público e irmos direto pro meu apartamento. Com medo de ser estuprado, roubado e morto (por que não?!), não abri mão do date fora de casa e joguei a real: “Olha, a gente ainda nem se conhece e nada me garante que você não é um psicopata”. Para não ser desagradável, suavizei a mensagem com um tom brincalhão. Ok, um encontro de algumas horas em um bar também não me garante a segurança total se depois dos drinks vou levá-lo para casa, mas é uma forma de prevenção e dá para sentir o humor do encontro e a vibe do rapaz. Convencido, ele fez questão de um lugar não muito frequentado. Nos encontramos, flertamos, bebemos e ele amanheceu na minha cama. Foi embora às 7h. Mais tarde, fui mandar uma mensagem, mas, havia sido bloqueado.

Sem entender o block que tinha levado, recorri ao Facebook para stalkear porque sou trouxa e curto sofrer uma rejeiçãozinha. Para piorar, não sabia o nome completo do indivíduo que passou a noite comigo – alô, comportamento de risco! Essa não era uma boa época da minha vida, confesso. Mas como a tecnologia tem suas maravilhosidades, o Facebook reconheceu o telefone do cara e me sugeriu ele de amigo.

Ao abrir as fotos dele, me deparei com uma mulher de sorriso largo, segurando uma criança pequena e fofa ao lado. Meu estômago embrulhou. Forte, resisti àquele soco e entrei no perfil dela. Sim, ela carregava o sobrenome dele. Na timeline dele, piadas idiotas chamando os amigos ht de viado para ser engraçado. Porque em várias partes do Brasil ainda é piada ser gay. E pelo jeito, eu acabei virando palhaço.

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