Diário

Tá difícil confiar

December 1, 2016

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Confiança é um dos fundamentos, eu diria, imprescindíveis, para uma boa relação. Sem ela não há segurança para que possa haver liberdade, como Bauman aponta em paráfrase a Freud. Contudo, existem momentos em que a gente se pega desprevenido e percebe que confiar pode ser apenas uma ilusão que acalenta a falsa sensação de que estamos seguros.

Li no site do Estadão, veículo que considero confiável (olha a confiança mais uma vez), uma notícia que me pegou de surpresa. Era uma nota divulgando os resultados de testes feitos com protetores solares por uma associação de consumidores. Cinco marcas teriam sido reprovadas ao apresentar fator de proteção menor que o apontado em suas embalagens. Na lista negra estavam nomes consagrados e pertencentes a grupos gigantes do mercado de cosméticos. Não foram uma ou duas. Foram cinco reprovações. E protetor solar não tem a ver só com vaidade, mas com saúde e segurança, já que os raios UV podem causar câncer. Ainda está em discussão o reconhecimento do laboratório que emitiu os laudos, as condições e a metodologia adotadas para a realização dos testes aplicados pela associação. Assim, não tem como tirarmos conclusões precipitadas sobre o caso e as empresas divulgadas. De qualquer forma, acredito que a confiança de quem consumia alguma das marcas apontadas pode ter sido abalada.

No entanto, pesquisando um pouco mais, notei que esta não é a primeira vez que essa associação de consumidores causa polêmica ao divulgar a reprovação na eficácia do FPS de protetores solares em seus testes. Já aconteceu em 2009 e 2013, sendo que um padrão que se repete é a época que soltam os resultados: sempre perto do final do ano, que seria pouco antes do verão e da alta temporada. De fato, esse seria o momento mais crítico para pensarmos nos raios UV. Mas caso seja sensacionalismo, é perigoso descreditar marcas que tiveram seus produtos aprovados pela Anvisa porque a consequência acaba sendo a desmotivação das pessoas em se protegerem. Portanto, em quem devemos podemos depositar nossa confiança?

Talvez eu seja romântico demais em querer confiar com tranquilidade nas pessoas. Sim, marcas, marketing, publicidade, jornais, o rolê todo é feito de gente. Não almejo a “confiança de olhos fechados”, que é sinônimo de cegueira. A credibilidade, o poder acreditar sem precisar ficar em constante vigília me parece o ideal. Se a entrega sem desconfiança de fato existir, ela deve estar valendo muuuito pela raridade que me parece ser. Veja bem:

Hoje não dá para confiar que seu protetor solar vai protegê-lo do sol.
Hoje não dá para confiar em quem atesta que seu protetor solar vai ou não vai protegê-lo do sol.
Hoje não dá para confiar que seu vice não vai ser cúmplice do golpe.
Hoje não dá para confiar que no seu beck não vai ter haxixe.
Hoje não dá para confiar que seu celular vai chegar ao final da garantia com a bateria durando até o fim do dia.
Hoje não dá para confiar que a timeline do Facebook vai refletir com fidelidade a realidade do mundo.
Hoje não dá para confiar que seu namorado não vai estar em um relacionamento aberto enquanto você permanece sozinho na monogamia.

Quem sabe amanhã?

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