Diário

Se você pudesse escolher, seria hétero?

January 19, 2017

Um dos assuntos da semana passada foi a revelação de que o ator Leonardo Vieira é gay. Achei a situação toda muito chata, tendo em vista que ele sofreu ataques homofóbicos na internet e foi devidamente prestar queixa na polícia. Mas acho que o episódio serviu pra muita gente, incluindo eu mesmo, refletir bastante.

É louco perceber a comoção que vira o fato de um cara que esteve nas novelas da Globo ser gay. Vendo a notícia do Ego, que foi quem colocou as fotos do ator beijando outro homem na internet, não achei nada de mais – considerando que se trata de um site de fofocas, claro. Só que isso é o meu ponto de vista, né. Porque ser LGBTQ ainda é um tabu gigantesco no Brasil. Mais insano ainda, perceber como incomoda tanta gente a ponto de se darem o trabalho de ligarem o computador, acessarem sites e redes sociais e escreverem textos pra atacar a vida de alguém que não tem nada a ver com a sua. Isso só me faz pensar que temos muuuito a melhorar.

Li a carta que Vieira divulgou e achei emocionante. Quase impossível não se identificar com a série de questionamentos que ele lança sobre ser gay. Questões que atormentam ainda muitos LGBTQ e que me parecem inerentes ao processo de sair do armário. Perguntas como: “O que minha sexualidade interfere na vida dos outros? Por que eu simplesmente ser algo perturba tantos desconhecidos? Como podem pensar que minha sexualidade me define como pessoa?” permeavam o desabafo.

O ator diz que nunca saiu do armário porque jamais esteve em um, e põe em cheque o termo “assumir-se gay”, argumentando que assume-se roubos, furtos, assassinatos, crimes em geral e, portanto, o termo é pesado demais pra declarar a sexualidade, que nada tem a ver com o prejuízo dos outros. É verdade que em um mundo ideal ninguém deveria ter que passar pelo drama que é sair do armário, todos simplesmente seriam livres pra amar sem precisar explicar nada a ninguém. No entanto, esse ideal me soa tão longe que fica mais pra utopia e vejo que ainda é importante se declarar publicamente gay. Na minha opinião, a lógica é bem simples: enquanto existir a presunção de que qualquer pessoa que nasça seja heterossexual, como normativa, continuaremos nascendo dentro de armários. Portanto, se afirmar como LGBTQ tem importância política, eu diria, considerando o processo árduo que é conquistar espaço, aceitação, apoio ou até as migalhas da tolerância em nossa sociedade machista e sexista.

Essa reflexão fez muita gente pensar se pessoas públicas não teriam a responsabilidade ou o dever social de se assumirem. Também na carta, Leonardo diz que nunca hasteou bandeira apesar de não ter escondido sua sexualidade. Aí, fico aqui imaginando: Será que se a geral, incluindo os famosos, saíssem do armário e se envolvessem na luta a vida de todos não seria mais fácil? Afinal, justo ele que se enquadrou tão bem em um sistema que o  consagrou como galã e sex symbol, hoje vive a outra face disso.

Não tô dizendo que é fácil. Como bem apontou Vieira, existem prejuízos profissionais quando se é publicamente gay. Além do mais, quem tem a vida pública fica bem mais exposto à violência (como aconteceu com o próprio ator) podendo se tornar alvo do ódio homofóbico. Assim, acredito que cada um sabe da sua dor e do tranco que aguenta. Sair do armário é um processo muito pessoal e particular, nada simples. Acredito que ninguém merece ter a responsabilidade ou o dever de passar por isso em nome dos outros. Claro que quem o faz merece palmas, apoio e louros e ajuda muita gente, além do mundo como um todo.

Em outro momento da declaração, o ator diz que se pudesse escolher, seria hétero. Quando li, tive uma reação instantânea. Me perguntei se penso assim também. Dentro do armário, essa era uma fantasia recorrente pra mim, o de quão fácil seria minha vida se eu não fosse viada. Hoje, já não faz mais sentido. Apesar de todas as dores e frustrações, tem todo um universo de diversão, liberdade, empatia, conhecimento, conquista que só foram possíveis por me conhecer sendo bicha. Sinto um prazer tão grande em usar minha maquiagem de todo santo dia, andar montada na rua, flertar com boys e poder exercer minha identidade de um jeito singular, que nenhuma vida heterossexual poderia me proporcionar. Pode parecer uma visão romantizada achar que sou mais feliz assim, já que, na real, nem tenho outra escolha. Porém, a simples afirmação de que “se pudesse, seria HT“, parece que tira todas as coisas boas que existem numa vida LGBTQ e coloca a sexualidade como uma imposição, um fardo lastimável. Ser viado é dor, mas também é gozo.

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