Diário

Detox do celular

February 2, 2017

 

Com alguns anos nas costas acompanhei a revolução do celular. Antes ele era visto só em filmes e seu tamanho grande parecia um tijolo acoplado a uma antena comprida, algo parecido  com aqueles walk talks que eram o brinquedo high-tech da época. Depois, quando começou a se popularizar comercialmente no Brasil, já era menor, mais portátil e agradável esteticamente, tipo o StarTAC. Só que a função ainda era apenas fazer ligações. Logo em seguida, num salto tecnológico, veio a geração dos telefones com tela maior, de fundo em luz azul. Daí, fomos para os de painel colorido, com lanterna, alarme, envio de torpedo e que culminou no meu antigo e amado V3i – quem não se lembra? Ao mesmo tempo, um dos meus desejos de consumo era o Blackberry com teclado embutido. Achava aquele design tão adulto e profissional… No entanto, tudo mudou pra valer depois que a Apple lançou o iPhone com tela sensível ao toque e a infinita possibilidade de aplicativos. Finalmente, o celular passou a ter funções muuuito além do telefone e ganhou o nome de smartphone. Acessar e-mails, navegar na internet, se localizar por GPS, fazer pesquisas rápidas no Google, paquerar – tudo ficou possível.

Assim, o que era extra antes se tornou imprescindível num piscar de olhos. Hoje, quem não vive sendo importunado a qualquer hora do dia pelos apitos do Whatsapp? Qual o busão que não tem um passageiro mexendo no Facebook? Ou que solteiro no século XXI nunca testou o Tinder, o Grindr, o Hornet, o Growlr, o OkCupid, o Happn? (Sim, eu já tive todos). Juro que fico surpreso quando ouço falar em alguém com menos de 40 anos que não tenha uma conta no Instagram. Tenho visto notícias avisando que o número de acesso à internet via telefone já passou os computadores. E na era da informação e da comunicação, ficar sem o celular é quase a morte, gera uma ansiedade danada.

No começo deste ano meu celular teve alguns problemas. A bateria não carregava direito e nem esperava chegar a tarde pra me dar adeus. Encontrar tomadas pra ligar o carregador começou a virar paranóia minha. Sortudo que sou, o telefone ainda tinha um mês de garantia, mas eu teria que enviá-lo pra longe, o que me deixaria sem comunicação imediata por cerca de 2 semanas. A ideia me pareceu tão assustadora que resisti como pude: tentei resetar o aparelho todo, apaguei aplicativos, deixei de usar o bluetooth, mas nada resolveu. Sem escolha, cedi.

Pra minha surpresa, ficar sem o celular foi uma ótima experiência, exceto pelos 3 primeiros dias. Foi o tempo que levou pra cair a ficha de que o telefone, que tanto parecia uma extensão de mim mesmo, a vida do meu alterego online, não estava mais aqui. Ás vezes ia até a bolsa procurar o aparelho. Outras horas, pegava o carregador à noite ia colocar na tomada e só então me tocava que o smartphone tinha ido pra assistência. Mas depois desse período de adaptação foi tudo muito bem. Tive um descanso pro meu cérebro, fiquei menos preocupado em responder Whatsapps inoportunos de trabalho, limitei meus e-mails ao tempo em que eu estava na frente do computador apenas, parei de perder tempo no Snapchat e por aí vai. Me senti menos inflado de informação. Percebi que tinha desenvolvido um senso de urgência que era pura ilusão e só aumentava minha gastrite. Sabe aquela ansiedade que dá de ver se o sinalzinho de check no applicativo fica azul ou a pressão que vem quando você lê a mensagem e não responde na hora? Por uma semana e meia isso sumiu. Também acabou sendo um detox poderoso pra minha FOMO, sigla pra “fear of missing out”. Basicamente é aquela sensação angustiante de que você tá desperdiçando a sua vida quando abre o Instagram, ou outra rede social, e se dá conta que geral tá curtindo uma praia paradisíaca enquanto você mofa em casa junto com a Netflix. É o medo de não estar vivendo felizão, constantemente, enquanto seu feed todo festeja, bebe Don Perignon, compra Chanel, viaja pra Tailândia, janta no Augustine e tal.

O detox do celular foi forçado, mas foi ótimo. Recomendo pra quem tem sofrido de ansiedade e estresse nessa vida contemporânea e tecnológica.

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