Diário

Carnaval da inadequação

March 8, 2017

Minha primeira vez na Cidade Maravilhosa e a constatação é simples: sim, o Rio é mesmo maralindo. Uma capital de praia sorridente, vegetação generosa, arquitetura histórica, história presente e gente desencanada. Ela faz jus a todas poesias e músicas que lhe foram dedicadas, de fato. Assim que cheguei num sábado ensolarado e peguei o Uber, fiquei hipnotizado pelo caminho rumo à zona sul. Finalmente, era como se eu estivesse vivendo dentro de uma novela de Manoel Carlos e confirmando que lá existe aquela beleza #real_oficial.

Cheguei no apartamento alugado pelo Airbnb, em Copacabana, bem na primeira quadra depois da Avenida Atlântica e a poucos metros do Copacabana Palace. Tudo estava perfeito e meu coração, cheio de entusiasmo, pulsava forte. A vista do quarto era de cara para o mar. Depois de um banho pra tirar as várias horas de viagem de ônibus, comecei a montação: muito glitter, adereço de cabeça coberto de penas, maiô, shorts jeans de cintura alta, meia arrastão e tênis. Essa era a minha aposta de look.

O combinado com alguns amigos era ir pra um bloco LGBTQ no Aterro do Flamengo. Assim que vi a movimentação e um monte de gays fantasiados senti que tinha encontrado um lugar pra pertencer, um lugar que me dizia respeito. E logo me veio à memória a parada gay de São Francisco que aparece nos primeiros episódios de Sense 8. Todo mundo muito feliz, livre e confortável pra estar em um lugar público, em plena luz do dia, festejando. Não haviam limitações para ser quem você quisesse ser, pelo menos aparentemente…

Depois de alguns minutos no bloco, observando aquelas pessoas, o entusiasmo inicial começou a passar e meu espírito analítico foi chegando, sorrateiro. Havia uma maioria muito grande de homens gays brancos. Raras vezes vi meninas lésbicas. Travestis, bichas femininas, gays poderosas, não binárias, andróginas, talvez eu pudesse contar com os dedos de uma mão mesmo que fosse maneta. Apesar de inúmeros caras estarem usando fantasias femininas, ficava claro que aquela era uma encenação para eles, que seguiam bem um padrão: corpos esculpidos, cabelos curtos e barba. Diferente de mim, que vivo dentro de roupas femininas, meu corpo é zero definido, rosto pelado e lá ainda aproveitei pra ser a vadia de maiô branco e meia arrastão. Assim, foi fácil chegar à conclusão do porquê enquanto meus amigos estavam na (bem sucedida) maratona de beijar mais de 10 em menos de uma hora, eu continuava invisível – eu não atendo aquele modelo. Nem as penas longas do meu adereço de cabeça pareciam chamar a atenção. Era como se ninguém me visse. Exceto por algumas garotas gentis que vinham elogiar minha maquiagem. O sentimento de inadequação foi me engolindo mais rápido que meus goles de Skol Beats.

Finalmente, depois do sabor amargo e um leve embrulho no estômago, a ficha caiu. Nem o cenário carioca, maravilhoso, conseguiu atenuar meu incômodo. A simples sigla LGBT não me atende mais. Ir pra um lugar com a bandeira do arco-íris só porque representa tolerância nem sempre quer dizer aceitação. Agora, é preciso filtrar e ser mais específico pra me sentir incluído em algum ambiente. Agora, o LGBT tem que vir acompanhado de um complemento. Agora, o LGBT tem que ser LGBTQ, LGBTQ de esquerda, LGBTQ das poderosas, LGBTQ feminista.

Eu já sabia, mas levei na cara a percepção de que sou uma minoria dentro da minoria e que ainda precisamos conquistar espaços, visibilidade e inclusão. Por isso, várias perguntas não param de ecoar na minha cabeça. Onde estavam as outras letras do LGBTQ que não os gays machos? Onde foram as bichas não binárias, as “afeminadas”, as lésbicas, as travestis? Será que em outro bloco? Ou não pulam mais carnaval depois de, assim como eu, sentirem-se constantemente rejeitadas e inadequadas pra essa festa? Se alguém aí souber, me avise porque é pra lá que eu vou na próxima.

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