Beleza, Diário

Make para todes

March 13, 2017

 

O mundo da maquiagem não é mais o mesmo. Nos últimos anos temos visto cada vez mais garotes* passarem tempo em frente à penteadeira e carregando o nécessaire estufado por onde vão. Hoje, nosso delineado sai tão afiado quanto o delas, esfumamos sem deixar marcas e a pele, impecável. Nada de ser discreto e apenas corrigir imperfeições. Queremos mais. Queremos deixar claro que não tememos o preconceito, que não somos intimidados por olhares repressores, que não estamos preocupados em preencher as expectativas de masculinidade da sociedade e, sim, tá na cara que estamos usando make – Duh?!

Jean Paul Gaultier, visionário que é, lançou em 2008 produtos de maquiagem voltados para os homens. Apesar da intenção legal e inovadora do estilista francês, que criou os sutiãs cônicos de Madonna (divindade gay, como todos sabemos), os itens eram poucos e tímidos: bronzer, batom incolor, lápis de olhos e máscara de sobrancelha. A campanha trazia um rapaz que, coitado, não dava pinta. De terno e com cara de sério, ele fazia a barba de manhã e ia retocando a maquiagem ao longo do dia. O marketing da marca ainda apostava na figura do hétero que se cuida. Mal se sabia, naquela época, que as bichas ficariam poderosas em menos de uma década e viríamos com tudo, provocando o apocalipse dos enrustidos.

Em 2017 a gente não pede mais licença pra comprar um batom matte bapho e extremamente pigmentado, bem diferente do bastão quase incolor de Jean Paul Gaultier Monsieur. Nem estamos preocupados se o lápis preto é para mulheres, tem flores na embalagem rosa e está na seção feminina da loja. Queremos é ver no espelho, estampado, o rosto de quem realmente somos: viadas invocadas. Pensamos, agimos e somos diferentes. Não pertencemos a nenhuma das duas limitadas categorias: feminino ou masculino. Somos muito mais que o que pregam os arquétipos binários. Nem sempre todo mundo entende, e por isso, ainda somos barrados em provadores de loja, ocasionalmente. Mas isso não quer dizer que nos intimidamos ou vamos parar de lutar por visibilidade, representatividade, direitos e garantias.

Cansamos dos tutoriais chatos e sem graça de maquiagem masculina e resolvemos fazer do nosso jeito. Manny Gutierrez, Jefree Star, James Charles e Patrick Starrr são apenas alguns nomes de uma nova geração que é fora da caixa e do armário.

Mesmo que seja na gringa, acho importantíssimo que iles* estejam ocupando espaços como campanhas de grandes marcas de cosméticos e até desenvolvendo produtos que levam seus nomes. Manny abocanhou a Maybelline, sendo o primeiro garoto propaganda da marca. James é da Cover Girl, Jeffree tem sua própria label.

No Brasil, ainda bem que posso citar alguns exemplos de progresso nesse sentido. A Avon lançou uma campanha para seu BB Cream Colortrend com a mensagem de democracia da pele, com várias pessoas LGBTQ ahazando numa coreô e todes* de pele perfeita. Já a Natura, relançou a linha Faces com uma pegada urbana e divulgando que  a maquiagem pode ser “para homem, para mulher, seja quem quiser”. Inclusive, na revistinha de vendas, vi um selo fofo indicando isso. No entanto, eles foram mais discretos na campanha.

Eu disse tudo isso, só pra avisar que as coisas mudaram e a make agora é pra todes*, sim.

* Busquei usar variações e pronomes que não indicassem gênero. Muitas pessoas substituem a vogal marcadora de gênero por um "x". 
Por exemplo: "elx" ao invés de "ele/ ela". No entanto, ninguém sabe como pronunciar esse encontro consonantal triplo! 
E também fiquei sabendo que pessoas com dislexia não conseguiam ler essas palavras. Por isso, e por achar mais divertido, prefiro 
o uso do "e" e ocasionalmente pronomes nomes. Por exemplo: "todes" ao invés de "todos" e "ile" ao invés de "ele/ ela". Sacou?

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