Diário

Sendo bicha, por que o feminismo me toca

March 20, 2017

Eu nasci com um pênis. E apesar da adolescência conturbada, em que cheguei a desejar me transformar em uma garota, nunca me considerei transexual. Esse desejo foi passageiro e era muito mais uma fuga fantasiada da esperança de que minha vida fosse mais fácil que um entendimento sobre mim mesmo. Mal eu sabia do sofrimento que é ser transexual de verdade… Mas na minha cabeça ingênua, se eu tivesse uma vagina, teria a permissão social pra usar maquiagem, comprar sapatos de salto,andar com uma bolsa nos braços, vestir tecidos fluidos e por aí vai. Assim, finalmente eu poderia ser como sempre fui: mais delicado que os outros meninos, de fala mansa, de andar sinuoso e gesticulação leve.

Na aula de educação física, um professor inconsequente me chamou de bicha. E eu, com 9 anos, já convivia com o estigma da minha delicadeza inata e, por isso, sofri bastante. O comentário infeliz foi o aval que meus coleguinhas precisavam para se sentirem amparados ao fazerem piadas e rirem da minha cara de viado, do meu jeito de correr rebolandinho e da minha lancheira rosa e roxo. O machismo que legitimou a chacota também fez muito mais. Ele sempre me mandou engolir o choro e não lacrimejar, pisar duro e não andar como mariquinha, coçar o saco e não cruzar as pernas, me calar e não resmungar, reprimir e não sentir. Afinal, o feminino é considerado fraco, frágil, inferior. Ai de mim não estar a altura de uma postura ogra pra honrar meu pinto entre as pernas.

No entanto, a mudança de sexo não veio e aprendi que meu corpo nunca me incomodou de verdade. A disforia de gênero sempre foi uma desconhecida e, na real, o que me fazia sonhar em ser diferente era o machismo. Machismo esse que diariamente me lembrava que eu estava em débito com ele, já que não atendia sua demanda de ser como os outros garotos. Se não fosse um feminismo vivido dentro de mim, que me mostrasse que não tem nada de errado em ser feminino do meu jeito e com o entendimento de que não devo nada ao machismo por ter um pênis, talvez eu tivesse me hormonizado e operado. Afinal, é inaceitável pra sociedade alguém que nasce como homem, com todos os privilégios garantidos pelo patriarcado e resolve abdicá-los pra ser bicha. E não só bicha. O que é pior: bicha afeminada.

Com alguns anos, a mídia aprendeu que poderia ser legal aceitar gays. Afinal, as pesquisas apontam que consumimos mais e melhor. Assim, do cinema à novela, do restaurante ao cruzeiro, todos empunharam o arco-íris. No entanto, o convite era restrito: apenas gays brancos, educados, de classe média alta e heteronormativos (a.k.a., que não dão pinta). Mas a misoginia tem raízes tão fundas que não parou na aceitação condicional da mídia. Ela entrou até no meio LGBTQ. Uma comunidade que sofre tanto preconceito deveria saber os caminhos para se praticar a empatia. Mas por pressão social cede, oprime e invisibiliza as femininas. Perdi a conta de quantas vezes já fui xingado no Grindr por gays que se sentiram ofendidos com meu perfil que diz “Se você é discreto, bom pra você. Prefiro ser uma bicha destruidora”. Um, inclusive, disse que eu devia morrer, sem nem me conhecer. Outro, em uma conversa rápida, soltou: “travesti assanhada não dá, tem que se dar o respeito como mulher” e não parou por aí; “sou homem gay que gosta de homem gay” disse o viado macho no mesmo discurso. Outro indicador menos agressivo, mas mais amplo: quem não se lembra de que a sigla era GLS, em  que lésbicas vinham em segundo lugar; depois, LGB, sem menção às  travestis e transexuais? Não que a simples alteração das letras tenha mudado a realidade, mas parou de refletir o padrão vigente.

Sou alvo do machismo e da misoginia. Se houvesse a igualdade entre os gêneros, ser uma bicha feminina ou um gay macho não importaria; travestis e transexuais não seriam assassinadas, teriam oportunidades em escolas, faculdades e no mercado; expressar meu gênero não me impediria de ir a lugares, nem me afastaria dos flertes e o mundo seria um lugar melhor. E é no feminino que encontro minha maior força. A força de resistir e lutar pela igualdade. Batalhar por oportunidades, direitos, garantias, visibilidade com a delicadeza e a grosseria que eu quiser e com a leveza  e a truculência que eu me dispuser. Porque lutar como uma garota é lutar como se é.

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