Diário

Fui confundido com mulher

April 18, 2017

 

“Pode vir, senhorita”, disse o segurança da balada, me apontando a mulher de terno que me revistaria. Sim, era comigo mesmo. Fiquei nervoso, sem saber se deveria desmentir o moço ou fingir ser uma “senhorita”. Sem tempo pra decidir, já comecei a ser apalpado por ela que, em seguida, pediu pra eu abrir a bolsa. Obedeci, e depois de três passos pude respirar aliviado: estava dentro da festa e não precisava continuar com aquela atuação.

Fiquei surpreso. Será que eu realmente parecia ser uma mulher? Na entrada, a iluminação não era tão forte quanto em uma clínica médica, mas também não era tão penumbrosa como dentro da balada. Eu estava vestindo jeans skinny, bota de salto grosso médio (5 cm), camiseta, kimono de tricô, colares compridos e uma bolsa a tira colo. Minha silhueta exibia uma feminilidade inegável? Não havia chances de eu estar meio a la Steve Tyler?

Se o episódio tivesse acontecido há alguns anos atrás, na época em que eu ainda não me sentia confiante o suficiente, talvez tivesse ficado incomodado e um pouco irritado. Acharia falta de sensibilidade alguém presumir que eu fosse mulher. Mas hoje, entendo que gosto disso. Gosto de poder ser percebido como homem ou como mulher. É um misto de satisfação pessoal e provocação social. A androginia é a melhor definição do meu estilo e se torna algo tão ambíguo que depende muito mais dos olhos de quem vê pra  interpretar meu gênero que, de fato, o que tenho entre as pernas. A percepção de masculino e feminino está intimamente ligada ao repertório de quem enxerga e às limitações ideológicas que atuam nessa pessoa. Muito provavelmente, pro segurança que pensou que eu fosse mulher, alguém de salto, calça colada, bolsa e túnica só poderia ser do sexo feminino. Ele não imaginava que um homem também usaria essas roupas.

Um desdobramento dessa confusão que acho interessante é quando quem acreditava que eu fosse “ela” é contrariado, seja pela minha voz ou por uma luz mais reveladora. De repente, essa pessoa se vê repensando toda a questão de gênero, nem que seja por poucos segundos. Não só isso. Também mostra que a diversidade permeia (ou deveria permear) todos os lugares. LGBTQs não vivem mais apenas escondidos na madrugada ou nas periferias da cidade. Estamos pondo a cara no sol.

Com o tempo, me caiu a ficha de que não existe nada de ofensivo  em ser confundido com mulher. O problema é que inúmeras vezes termos no feminino como: mariquinha, mulherzinha, bicha são usados de forma pejorativa, abusiva e ofensiva, sempre com o intuito de causar a emasculação. Assim, automaticamente, ser tido como do sexo feminino, homossexual, travesti ou transexual parece um deboche. E não é.

Ainda bem que me livrei desses fantasmas que me assombravam porque mal podia imaginar que depois da primeira vez, ficaria mais frequente ser percebido como mulher. Foi assim em um bar, quando perguntei pelo banheiro e fui apontado ao WC feminino. Ou ao sair do sanitário masculino, um pai com seu filho pequeno deu dois passos atrás pra checar se não tinha ido pra porta errada.

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