Diário

Um dia, quem sabe, a gente melhora

May 17, 2017

 

Hoje, 17 de maio, é Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia. Sim, legal que haja uma data formal pra que a gente possa pensar em todo preconceito que intoxica nossa sociedade há séculos, milênios. Afinal, é necessário falar da intolerância que espanca e mata pessoas LGBTQs nas ruas, expulsa gente de casa e do convício familiar, causa rejeição e assédio no meio profissional. Isso tudo é verdade e faz parte da realidade diária de muita gente. Mas sabe, justamente hoje, não me sinto o mais otimista.

É que tenho percebido que é mais fácil cada um olhar pro próprio umbigo e pensar nos preconceitos que sofre (ou sofreu) do que enxergar quais preconceitos reproduz. Ou então, a galera logo imagina aquele preconceito que tá lá, fora de si, e que só vem da bancada evangélica e dos exorcistas de plantão. Mas não. Triste e frustrante se dar conta que ele pode vir da gente mesmo e de dentro da própria comunidade LGBTQ.

Um grupo dentro de uma minoria, quando alcança maior aceitação, conquista alguns direitos e garantias, pode facilmente pensar que emergiu socialmente e passa, então, a replicar a opressão que sofria contra outros grupos minoritários. O gay branco, de classe média, que teve educação e que não dá pinta, agora é contemplado com história de amor sensível, chorosa e com final feliz na novela das oito. Muito diferente de anos atrás, quando a única possibilidade de se ver um gay na TV era no núcleo de comédia da emissora. Esse grupo gay ainda sofre com o preconceito – longe de mim dizer que não. No entanto, conseguiu-se um passe pra transitar sem ser reprimido como antes, ganhou visibilidade e representatividade.

Mas e o resto de nós, viadas amarelas, bichas pretas, travestis, trans, bis, afeminadas, queer? Ainda somos invisíveis, varridas pras margens e que precisam de muita coragem pra sair das trevas da existência noturna e por a cara no sol. Os espaços que nos são reservados ou não existem ou são aqueles que sobram. Já contei que fui expulso do banheiro masculino e do banheiro feminino de uma balada na mesma noite?

Existe uma dissociação entre aqueles gays brancos, educados, classe média e discretões, que conquistaram mais espaço, e o restante da comunidade LGBTQ que ainda é marginalizada. Essa distância aumenta e consolida o que chamo de endopreconceito, que é o preconceito vivido dentro do próprio meio LGBTQ. Não acho saudável ficar apontando essa fissura porque ela tira a unidade da sigla e individualiza as batalhas. Mas é praticamente impossível não perceber e não falar nada. Rafael de la Dehesa, autor do livro “Incursiones queer en la esfera pública. Movimientos por los derechos sexuales en México y Brasil” afirma que exista a consolidação de um homonormatividade que paradoxalmente reforça a marginalização outras expressões sexogenéricas menos amenas aos ideais de classe média.

Pois é, e sinto isso diariamente. Todo dia o gay macho homonormativo/ heteronormativo, vem me dar no saco porque sou feminina ou afeminada. Sou constantemente ridicularizado, rechaçado e rejeitado. Odiada e desejada de morte também fazem parte da minha lista de experiências vividas em um meio que deveria praticar a empatia, a aceitação e o acolhimento. Imagino como não deva ser 298171355874 mil vezes pior pras manas que são travestis, transexuais, negras, gordas, etc.

Por isso, meu apelo nesse dia é que cada um pare pra pensar em seus próprios privilégios e se não tá fodendo o rolê dos coleguinhas sendo intolerante ou preconceituoso. Porque, infelizmente, ser homofóbico, bifóbico, transfóbico, babaca e escroto não são adjetivos exclusivos de heterossexuais.

E pra ilustrar esse post, fiz um compilado do que vejo sempre nos apps de relacionamento, a.k.a pegação (grifado em amarelo). Pra juntar essa porcariada toda bastaram 15 minutos e muitos screenshots. Isso quer dizer que não é pouca merda que a gente tem que aguentar e o preconceito rola solto. Dá pra concluir pelas imagens que as pessoas têm mais medo da gay afeminada que de sexo sem camisinha.

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