Diário

Bicha amarela

June 29, 2017

 

Ser uma bicha afeminada, não-binária, já é complicado por si só. Agora, adicione a essa equação, ser amarela. Digo, de raça amarela, a.k.a. oriental, asiática. No meu caso, mais especificamente, de ascendência japonesa. A conta fica complexa e quase não fecha.

Durante meu intercâmbio em Phoenix, nos Estados Unidos, fiquei amigo de um mestrando de jornalismo chamado Cody. Ele estudava na ASU (Arizona State University) e era muito inteligente. Com 5 anos de idade a mais que eu, trabalhando com comunicação e em um país mais politizado em questões LGBTQ, me disse com humor: “Você conseguiria uma vaga fácil em universidades daqui porque pode ser considerado minoria tripla”. Fiquei confuso; era a primeira vez que alguém se referia a mim assim. Então Cody explicou: “Você é gay, latino por ter nascido no Brasil e asiático pela sua herança étnica”. Foi aí que tive um estalo. Aquela afirmação era verdade.

Obviamente que aqui no Brasil, sou apenas dupla minoria. Mas desde aquele papo, passei a observar mais as nuances dos preconceitos que sofro, relacionados à minha identidade de gênero, orientação sexual e raça. É comum encontrar em perfis de sites de relacionamento e apps, como Tinder, Grindr e cia., a frase: “Não curto orientais”. Normalmente, a afirmação vem seguida de mais discriminação racial ou contra afeminados. Isso é preconceito sexual. E basear sua atração em alguém somente pela raça da pessoa é fetichização.

Homens asiáticos são constantemente percebidos como emasculados. Ou seja, não viris ou não masculinos. Isso se deve ao esteriótipo generalizado do oriental ser menor, com menos musculatura, menos pelos e, portanto, mais delicado. Ah, e não pode faltar a história de que asiáticos têm pinto pequeno também. Esse combo todo me torna hipossexualizado. Sobretudo dentro da cultura gay, que é bastante falocêntrica (em que existe uma certa adoração à piroca), o homem oriental sofre prejuízos muito grandes.

Em contrapartida, ainda existe o outro extremo. “Nunca fiquei com um japa”, “Adoro orientais”, “Sempre quis pegar um asiático”, são algumas das frases que escuto frequentemente quando alguém vem flertar. Poderia ser uma informação inocente e dita apenas a título de curiosidade. Mas não é. Principalmente por eu ser feminino e ter uma imagem andrógina, é comum que as pessoas presumam que eu incorpore o esteriótipo da mulher asiática. Ou seja, quando não sou repelido pela falta da masculinidade exagerada, sou fetichizado. E o cara jura que vou fazer a gueixa submissa na cama. Afinal, é muito forte a ideia da oriental delicada, submissa, exótica e assim, hiperssexualizada. Historicamente falando, devido ao grande comércio entre Europa, China e Japão no século XIX, o romance do francês Pierre Loti, Madame Chrysanthème, ficou extremamente popular com centenas de traduções e republicações. Nele, um oficial europeu, da marinha, vai pra Nagasaki (Japão) e fica com uma esposa temporária pra satisfazê-lo. O personagem procura uma que tenha a pele clara, cabelo escuro, seja pequena, tenha olhos de gato, seja bonita e não muito maior que uma boneca. Foi esse livro que inspirou a famosa ópera Madame Butterfly e popularizou a percepção da mulher asiática no ocidente. Além disso, durante o século XX esse esteriótipo de objeto sexual foi reforçado durante guerras na Coréia, Vietnã e Japão. Depois da Segunda Guerra, houve o recrutamento mais de 200 mil japonesas para serem concubinas/prostitutas de soldados americanos. Situações similares aconteceram com coreanas e vietnamitas. Na contemporaneidade, a cultura pop e a pornografia continuam a disseminar o fetiche da asiática hiperssexualizada, vista como objeto de desejo de mutios marmanjos. Voltando pra minha realidade, quando caras que dizem curtir orientais vêm atrás de mim, não querem nem sabem quem eu sou na vida. Na real, boa parte das vezes, estão buscando uma fantasia.

Todas essas questões me tornam mais inapropriado, estranho, solitário e sem lugar no mundo. Isso tudo é reforçado pela falta de representatividade e protagonismo asiático. Na mídia ocidental não temos grandes representações de pessoas amarelas. Quem não percebeu na novela da Globo, Sol Nascente, o personagem japonês que era interpretado por um ator branco? Ou o fato de O Último Samurai, o cara que salva o Japão colonial, ser o Tom Cruise?

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