Diário

Ghosting: uma constante na minha vida

June 6, 2017

 

Mesmo quando criança, nunca sofri com pavor de fantasmas. Não a ponto de tirar meu sono, pelo menos. O problema é que agora, depois de adulto, esse medo vem crescendo.

Pra quem ainda não se deparou com o termo (o que acho difícil), de acordo com o dicionário do Google, ghosting é “a prática de terminar um relacionamento pessoal com alguém repentinamente e sem explicação, evitando qualquer forma de comunicação”. Em outras palavras, é quando aquele boyzão que você tava super a fim para de te responder e simplesmente some. Essa atitude, que pode ser considerada de mau gosto, desrespeitosa, insensível, egoísta, má educada, se consolidou com a tecnologia nos meios de comunicação. Principalmente por conta dos Tinders e Grindrs da vida, agora a gente leva um pé na bunda sem nem existir um pé. O negócio tá feio assim.

Poderia doer menos, já que não tem mais o impacto de ser chutado, mas a rejeição é foda igual ou pior. Tem quem faça o ghosting e se diz bonzinho, que fez “pra evitar machucar os sentimentos da outra pessoa”. Tá na cara que isso é respostinha, caô de boy trouxa, que não quer se dar o trabalho de falar que tá pulando fora do rolê. Terminar nunca é fácil, mas existem formas melhores de vazar. Quando alguém simplesmente desaparece, afeta a nossa autoestima. A gente fica boladona, se perguntando se tava com bafo no date e não percebeu. Se descuidou na hora da chuca. Se mandou whatsapp demais em dia da semana e por aí vai.

Eu já dei uma de louca e decidi perturbar o cara que fez ghosting comigo. Pensei: “Ah é que você pensa que vai me ignorar! Se não quiser mais falar comigo, então vai ter que me bloquear porque vou te encher o saco”. Comecei a bombardeá-lo de mensagens que iam desde “bom dia” até áudios de música alta na balada, passando por fotos nada a ver de prateleira de mercado, calçada da rua, decoração do escritório, pia do banheiro. A resposta demorou 10 dias pra acontecer. Fui persistente. O resultado: marcamos um barzinho que virou uma última transa. Depois disso, refleti sobre a energia, o tempo e o pacote de dados que gastei só pra dar uma e concluí: não compensou. Desisti do rapaz e ele também nunca mais me procurou. No final das contas, soube pelo Facebook que eu não fazia o tipo do moço. Afinal, logo em seguida ele começou a namorar um cara mais urso.

Ainda me lembro de um episódio de Sex and the City em que Berger terminou com Carrie via um post-it deixado sobre a mesa de centro da sala e ela ficou puta da vida. Mal Bradshaw sabia que depois, viriam os rompimentos por sms, por redes sociais, por e-mail e agora, eles nem vêm mais. Uma pesquisa realizada em 2014, nos EUA, com mais de 2500 pessoas entre 18 e 30 anos de idade, mostrava que 56% deles já tinham terminado um relacionamento por comunicação virtual. Agora, em 2017, a gente nem é comunicado, somos simplesmente ignorados com indiferença, descartados.

Tem psicólogos que afirmam que pessoas que praticam o ghosting têm dificuldade de encarar confrontos. No entanto, a real é que a gente nem sempre vai saber, com certeza, por que o cara disse que ia comprar cigarro e nunca mais voltou. Podem haver milhares de histórias, como no filme “Ele não está tão a fim de você”, sobre o boy ter perdido o celular, ter batido na tecla errada e deletado seu telefone sem querer, ter pego um vírus malware fatal no celular. Só que nada disso vai diminuir a frustração de ter sido rejeitado. As pessoas fazem o que têm vontade e o mundo é assim.

Só nesses últimos 15 dias, passei por 3 ghostings. Um deles, inclusive, foi de um cara que marcou drinks comigo e no dia do date desapareceu. Não deu satisfação, parou de responder. E o filho da p&%@ ainda ficava online no Whatsapp de tempos em tempos. Antes ele tivesse se acidentado e quebrados todos os dedos pra não poder teclar no celular. Aí, sim, seria justificável. Mas enquanto esse karma não chega pra ele, vou levando a vida com muito chocolate e álcool (cantando “All by myself” de pijama).

Não digo que nunca vou fazer ghosting com ninguém, até porque falar pro cara que ele tem bafo é constrangedor, mas acho que vale evitar ao máximo. Honestamente, prefiro que as coisas, namoro ou não, acabem de forma clara e com um belo ponto final. Essas pendências, mal terminadas, em que você tem a impressão de ter deixado a porta aberta pro fantasma voltar não são comigo. E sou forte o suficiente pra encarar que nem todo mundo vai sentir tesão ou se apaixonar por mim. Faz parte da vida. Nesses casos, Beyoncé no volume máximo e muitas batidas de cabelo sempre me animam. ¯\_(ツ)_/¯

 

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1 Comment

  • Reply Gus June 6, 2017 at 5:24 pm

    Acho que o ghosting é um karma pra todo mundo, porque todos já tivemos uma experiência levando de alguém, e dar também.
    E por mais merda que seja tomar um ghosting, tem horas que é simplesmente uma benção você dar ghosting, porque não gasta suas energias atoa tentando explicar pra alguém o motivo de não rolar mais nada entre vocês. Você evita ter que explicar pro colega que o fato dele ser machista, ou enrustido, ou gay heteronormativo (ou pior, tudo isso num mesmo indivíduo), é uma merda que não rola pra você.
    Mas acho que antes de escolher com quem a gente vai tomar drinks, talvez seja necessário escolher a si mesmo, gostar de você mesmo, se amar mais. Porque assim, quando rolar outro ghosting, você não precisa sofrer um luto por alguém que foi comprar pão e nunca mais voltou, porque você vai simplesmente saber o quanto aquela pessoa perdeu na vida dele, e vai seguir a vida.

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