Diário

LGBTQ o que?

June 17, 2017

O mês de junho é um mês muito especial. Além do motivo óbvio do meu aniversário (sou geminiano do dia 5), também é a época em que se comemora ao redor do mundo o orgulho LGBTQ.

Mas antes de dizer qualquer coisa, acho que vale fazer uma observação: este texto não tem pretensões acadêmicas, já que trata-se de um assunto bastante complexo. Só esclarecer algumas dúvidas comuns, que muitas pessoas que não estão envolvidas com a literatura, o ativismo ou a militância LGBTQ têm.

Quem acompanha o Garotos de Saia há algum tempo, sabe que não tenho usado a sigla LGBT, mas adiciono o Q ao final. Ela seria para contemplar pessoas queer. Essa palavra é muito interessante porque tem uma trajetória histórica particular. Proveniente do inglês, seu sentido era extremamente pejorativo. Ela era usada para designar quem fosse estranho, esquisito, mas não só no sentido de diferentão e, sim, em um nível de ridículo, de bizarro, de aberração. Assim, queer era visto de uma perspectiva ofensiva.

Depois de um tempo, foi adotado para se referir a pessoas gays, mantendo o teor de xingamento. Até que, lá pela década de 80, com o andar do tempo e o avanço das lutas pelos direitos LGBTQ, a comunidade resolveu reivindicar o uso do termo para si. Contei um pouco dessa história quando falei sobre a desconstrução do “bicha”. Em resumo, pessoas LGBTQ começaram a se identificar como queer, tirando o estigma que ela carregava e, por consequência, fazendo perder seu sentido abusivo de ofensa. Hoje, queer é entendido como aquelas identidades que fogem à regra heterocisnormativa. No entanto, não é uma palavra que se limita. Para alguns autores, por exemplo, queer pode ser aplicado a  qualquer coisa que não pertença a regras convencionais, estando envolvidas ou não com gênero e sexualidade. Aqui, no Brasil, existe o questionamento sobre o uso do termo, uma vez que ele vem dos EUA e denota assim a continuidade de uma colonização norte-americana em terras tropicais. Tem gente que prefere até adaptar e usar cuir. 

Há ainda outra explicação pro Q de LGBTQ, como sendo menção a quem está em questionamento. Em inglês, viria da palavra “questioning”. E aí, se refere àqueles que ainda estão no processo de autoconhecimento, se descobrindo dentro da sua sexualidade ou identidade de gênero.

Mas aí você pode me perguntar: o GLS virou LGBT e agora é LGBTQ. Quando vamos parar de aumentar as letras? Não é mais fácil colocar todo o alfabeto? Entendo que seja confuso, mas parto da ideia de que minorias sexuais precisam de visibilidade e representatividade para que se sintam mais incluídas, ganhem voz, tenham direito a seus próprios corpos e consigam trânsito em espaços públicos e privados. Não vai ser uma letra na sigla que vai mudar, mas já é um começo.

Também acredito que isso faça parte de um processo. Vejo a necessidade de acrescentar as letras neste momento em que precisamos quebrar paradigmas e esclarecer pra muita gente que não existem só gays e lésbicas que vivem fora da heterossexualidade. Abrir os olhos da sociedade para o fato de que o gênero não é vinculado ao sexo e que nenhum dos dois são binários (feminino x masculino; mulher x homem; fêmea x macho). Em tese, as siglas existem para se fazer política pública, já que o mundo ainda só consegue lidar com nomes certos, exatos e precisos. Isso sem falar no sentimento de pertencimento que um nome pode trazer a algumas pessoas que até então não conseguiam se identificar e, a partir daí, se sentem mais legitimadas.

Depois disso, daqui a muuuitos anos, acho que poderemos acabar com todas essas siglas e denominações porque não fará mais diferença sua categoria, mas, sim, sua individualidade. Até porque, sempre que nomeamos algo, mesmo que extensivamente e com uma sopa de letrinhas, acabamos deixando alguém de fora – o que não é legal. Ainda existem muitas minorias que não se consideram visibilizadas, contempladas ou representadas por nenhuma letra ou nome. Sempre haverão identidades e sexualidades que fogem às regras. Então, o melhor seria acabar com as normatividades e deixar todo mundo livre pra ser o que quiser.

Mas voltando ao que ainda existe no cotidiano, fiz uma listinha das siglas que já vi e expliquei um pouco sobre cada uma delas pra você não se perder:

  • GLS: Gays, lésbicas e simpatizantes. Deixou de ser usada porque excluía identidades de gênero e sexualidades como bissexuais, transgêneros, travestis, transexuais e outras.
  • LGBT: Lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros. O L veio antes do G para evidenciar e combater o privilégio masculino que sempre existiu através do patriarcado e do machismo.
  • LGBTQ: Lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e queer. Queer é um termo amplo para pessoas de identidade ou sexualidade que fogem às regras heterocisnormativas.
  • LGBT+: Lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e outras identidades e sexualidades. O sinal de + seria análogo ao queer, ou seja, para quem não segue a heterocisnormatividade.
  • LGBTTT+: Lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis, transexuais. Aqui existe a diferenciação entre travestis, transexuais e transgêneros. No entanto, transgênero pode ser entendido como um termo bem abrangente e que compreende travestis, transexuais, não-binárias e quaisquer pessoas que não são cisgêneras. Em outras palavras, todo mundo que não se identifica com o gênero designado pelo sexo.
  • LGBTTTQIA: Lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis, transexuais, queer, intersex e assexuados. É uma sigla extensa, verdade. Mas ela parece ser bem completa, uma vez que traz grupos como intersex e assexuados, que antes não eram contemplados.

Se você está entrando em contato com esses nomes e conceitos todos agora, não se espante. Leva um tempinho pra gente se acostumar e, quando você menos perceber, já vai estar com tudo na ponta da língua. Embora sejam muitas variações de siglas, acho que vale a dica de usar aquela que mais represente ou se aproxime do que você quer expressar.

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