Diário

Travesti por uma noite

July 14, 2017

 

A primeira vez que me montei, vestido de mulher, foi pra uma festa meio underground com o tema drag queen a la Ru Paul. Fiquei bem empolgado: peguei roupas de amigas emprestadas, tirei meu sapato de salto do fundo do armário, comprei um batom vermelho matte, fui atrás de cílios postiços e consegui até uma peruca bacana – tudo com semanas de antecedência. Tinha a expectativa e a curiosidade de comprovar se eu, montada, me pareceria com uma garota ou se meus traços masculinos me denunciariam.

Depois de muitos tutoriais no Youtube e várias tentativas de recriar as sobrancelhas à base de cola em bastão, quilos de corretivo e litros de base, desisti da manobra. Resolvi ir pelo caminho mais prático: usaria a franja reta da peruca pra cobrir as sobrancelhas. Acuendar? Também não. Imagine o inconveniente e a dor de ter que tirar a fita adesiva pra ir ao banheiro depois de duas cervejas? Mesmo assim, lá fui eu. Vestido curto, nude, de mangas 3/4. Scarpin de bico e salto finos, preto, coberto de glitter. Colete de pele bege e volumoso. Boca carmim. Cílios longos como de girafa. Pele impecável e bem contornada. Cabelo preto, liso e na altura dos ombros.

Saí do prédio e o porteiro, com um sorriso no canto da boca, disse: “Hoje tem festa, então!”. Eu, rindo: “Opa, e se tem!”. Pedi um Uber, que chegou e pareceu procurar um Guilherme conforme o cadastro, mas que ao entrar no carro, era incoerente com o nome registrado. Mesmo surpreso, o motorista tentou manter a naturalidade. No caminho, fiquei torcendo pra que ele não tentasse conversar comigo sobre nenhum assunto que demonstrasse machismo, intolerância ou religiosidade pra que eu não tivesse que passar por nenhum constrangimento. O silencio parecia fazer mais eco que o barulho do acelerador e o Waze não dava conta de achar um atalho que encurtasse aquela situação esquisita.

Depois de longos 12 minutos, cheguei à festa. Passei pelo bar, peguei uma bebida e fui pra pista. Um amigo meu estava tocando como DJ. Acenei e ele não correspondeu. Achei estranho, mas continuei dançando. Depois que o set terminou, nos encontramos e ele finalmente me reconheceu. “Meu Deus! Não sabia que era você! Juro que pensei que era uma guria”. Me senti elogiado. Meu maxilar anguloso e minhas panturrilhas exageradas não tinham me dedurado.

Com o avançar da madrugada, meu pé já sentia o cansaço do salto alto. Pra não me dar por derrotada, fui sentar na caixa de som, longe da galera que estava comigo. Do nada, percebi um cara se aproximando. Ele era bonitinho, mas tava totalmente fora do dress code. Aquele desconhecido começou a dançar me olhando, o que resultou nele me puxando pra dançar. Mesmo sem graça e achando estranha aquela situação em que não trocamos nem uma palavra, fui. Minha cabeça não parava de me atormentar com perguntas: Será que o fetiche dele eram crossdressers? Ou seria um daqueles obcecados em caras de calcinha (coisa que eu não tava usando)? Ele ia me curtir se eu me desmontasse?

Mas antes mesmo que a gente pudesse trocar nossos nomes, percebi que ele tava bem bêbado. Foi então que senti um frio subindo pela minha espinha. A inquietação das minhas dúvidas se transformaram num medo grande, que tomou conta de mim. E se aquele cara não tivesse se dado conta de que não sou uma mulher? A fumaça artificial e as poucas luzes coloridas podiam tê-lo enganado? E se ele me beijar e depois, ao perceber que tenho um pinto, me agredir? Será que um homofóbico iria àquele lugar? Bom, ele parecia estar louco o suficiente pra não perceber nem onde tinha ido…

Na hora, meu estômago embrulhou e já comecei a enxergar meu nome na página policial, como sendo mais uma travesti assassinada. Isso, ainda, se o crime acabasse sendo relevante o suficiente pra ser reportado. Caso contrário, entraria apenas pras estatísticas assustadoras de violência contra LGBTQs. Afinal, o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais, o país mais perigoso para homossexuais (segundo o NYT) e onde a cada 25 horas uma pessoa LGBTQ é morta pela intolerância.

Congelei. Não consegui mais dançar com aquele desconhecido entorpecido. Saí andando e larguei ele pra trás.

Voltei pra casa, tirei a make, a peruca e o vestido. Entrei no meu pijama e me senti seguro de novo, de baixo da coberta e numa cama quente. Pra mim, é fácil dizer que aquele pesadelo vivido acabou. Mas e pras tantas travestis e transexuais que vivem esse e outros medos diariamente? Pra elas, a insegurança não se resume a uma noite de festa à fantasia. É uma dor, uma angústia diária e que implica diretamente em quem são. O terror da perseguição não termina, muito menos em um quarto aconchegante. Muitas vivem nas ruas, lidando com a frieza do tempo e da sociedade que mata, violenta, despreza, ignora, invibiliza.

Eu montada, pronta pra sair de casa.

You Might Also Like

No Comments

Leave a Reply