Diário, Estilo

O bom de ser uma bicha montada

August 18, 2017

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Viadinho, fashionista, bizarrice, fashion freak, bichona… A lista de adjetivos que se pode ouvir quando você não faz a linha “macho discreto”, e sai de casa com um look lacrador, é longa. Xingamentos se misturam a elogios no coro da platéia popular que te aguarda porta afora. Os comentários apontam pra a dicotomia da vida quando a gente decide ser quem se é e se vestir como se quer: somos julgados em bom ou ruim, bonito ou feio, cafona ou trendy. Ainda não entendo quem se incomoda com a vida alheia, privada, que nada tem a ver com os outros e em nada interfere. Mas a gente ainda vive nesse mundo em que é preciso peito, fôlego, coragem e amor próprio pra se bancar na rua. A boa notícia é que tudo isso pode vir de dentro de você mesmo e não está, necessariamente, condicionado a ninguém. Ou seja, você não precisa dos outros para ser feliz do jeito que quiser, mesmo que os julgamentos existam.

Eu sei, leva tempo para se acostumar, ficar forte e aguentar o preconceito. Já passei (e ainda passo) por isso. Tem homofóbico que grita do caminhão, tem olhares conservadores de desaprovação no metrô, tem cochicho com a colega seguido de risadinha, tem cotovelada no amigo e apontamento com o queixo. Mas chega uma hora em que você fica com a casca grossa e liga um belo “foda-se”. Afinal, nada é mais gostoso que se sentir de bem com o look do dia, ser você mesmo, de verdade. É libertador.

Se ainda não te convenci, então dá uma olhada na lista abaixo de boas razões para se vestir, se maquiar e andar do jeito que você bem entender!

1 – Viver da verdade

Uma das coisas que mais me emociona, ainda hoje, é ouvir histórias de gente que saiu do armário. Em uma sociedade preconceituosa, essa é uma experiência que nos une de alguma forma, pessoas LGBTQIA. Mesmo que as vivências variem em cor e tom, raramente vêm sem lágrimas. Historicamente, gays femininos, travestis, transexuais sofrem muito. Somos marginalizados, subestimados, debochados, por conta de um machismo que persiste forte no século XXI. Passamos boa parte da vida lutando com nossos próprios demônios e encarando o dos outros. Por isso, sei que nada é mais gostoso que poder ser eu mesmo, com a cara no sol e cheio de toda feminilidade e androginia que me pertencem – apesar do preço alto que ainda pagamos. Sinto um prazer enorme em levantar de manhã, me maquiar, me vestir e sair para encarar a vida. Moda e beleza se tornaram meus exercícios diários de autoestima. É durante aqueles minutos na frente do espelho que me cuido e exerço minha escolha de ser quem quero ser. Para a maioria da população esse processo é uma garantia, para as bichas, é uma conquista.

2 – Marcar presença

Acredito que quando a gente é verdadeiro consigo mesmo e mostra isso ao mundo sem medo, nesse caso, se expressando através da moda e da beleza, as pessoas percebem. Elas costumam sentir a honestidade e a autoconfiança que são necessárias para bancar um look de bicha arrasadora. Se é seu caso, você deve ter percebido que as pessoas se recordam de você com mais facilidade. Até porque, ainda é raro ver nas ruas quem vive fora do binário de gêneros. Já aconteceu de completos desconhecidos elogiarem alguma peça de roupa minha, ou eu perceber olhares de invejinha sobre meus sapatos. Sim, me sinto a-ha-za-ni quando isso acontece <3

3 – Ter mais espaço no busão

Nas minhas andanças da vida, percebi que minha montação me ajuda a ter mais espaço em alguns (poucos) lugares públicos. Aqui, não tô falando de “lugar” como situação de respeito; tô falando de área física mesmo. Quando ando de ônibus, o acento do meu lado quase sempre é um dos últimos a ser preenchido. Preconceito? Pode ser, mas nesse caso a vantagem é minha! Até porque, quem curte ficar se acotovelando no busão ou encostando o braço no quadril de um estranho?

4 – Ter um plus criativo

Se você trabalha em algum ramo mais criativo, como publicidade, artes, fotografia, música, além de moda e beleza, pode sentir que seu senso estético é mais valorizado. Apesar de não ser regra, o ambiente desses segmentos costumam ser mais tolerantes e enxergar com bons olhos a diversidade e gente com um senso de autoexpressão e estética apurados. Infelizmente, isso ainda não acontece com frequência em meios profissionais tradicionais, especialmente em lugares menos cosmopolitas, mas acredito que seja questão de tempo até vencermos os preconceitos. A capacidade profissional está ligada a características individuais da pessoa e não, condicionada à sexualidade, identidade de gênero ou estilo.

5 – É um ato político

Quando a gente fala em política, as pessoas logo se lembram dos Poderes Executivo e Legislativo brasileiros. Mas na realidade, a palavra também se refere à vida pública. A gente tem uma faceta exposta à sociedade, pública e, portanto, política. Justamente para melhorarmos a compreensão de todos a respeito de sexo, gênero, identidade sexual e tantas outras coisas que envolvem ser bicha, é que se assumir como tal é importante. Ser viado é um ato político, faz as pessoas entrarem em contato com essa realidade, questionarem suas crenças e coloca rosto e nome em um preconceito insustentável. É comum ter medo do desconhecido, portanto, trazer à luz nossa realidade tira a obscuridade da homossexualidade e do espectro de gêneros.

 

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