Diário

Diversidade na cidade grande

October 26, 2017

 

Ano passado enfrentei meu retorno de saturno. E por mais que soubesse do risco de reviravolta na vida, jamais imaginei que o sexto planeta do sistema solar pudesse me acertar tão em cheio. Ele me chacoalhou e me colocou de ponta-cabeça, até eu desfazer minha vida na maior capital da América do Sul e voltar pro interior. Em outras palavras, cansei de trabalhar longas horas, queria ter tempo para projetos pessoais (tipo o Garotos de Saia), tinha vontade de me exercitar, queria gastar menos horas no busão pro trabalho, etc etc. Juntei minhas coisas, fiz as malas e dei adeus.

Retornei à minha cidade natal pensando que continuaria sendo exatamente a mesma pessoa que me descobri em São Paulo: diariamente montada e maquiada. Mas foi assim só no primeiro mês. Aos poucos, a ficha caiu e reparei na falta de diversidade da cidade pequena. De repente, eu já não tinha mais estímulo pra me vestir ou me maquiar porque pouquíssimas pessoas entendiam ou curtiam. Por lá, os olhares de estranhamento, do tipo que diz “WHAT THE FUCK?”, era quase a totalidade. Assim, apesar de ter começado a fazer pilates, ter voltado a ter o afeto dos almoços de domingo com a família, trabalhar a 10 minutos de casa e viver em frente a um bosque, comecei a sentir que estava me perdendo de mim mesmo. Além disso, minha vida amorosa também passou do rarefeito à inexistência. Os dates mensais se tornaram uma vez a cada passagem do cometa Harley.

Aí, comecei a entender que o que mais me atraía na metrópole não era a sensação da cidade que nunca dorme, da vida ativa em 24 horas e 7 dias da semana, nem a vasta oferta e variedade em entretenimento, mas, sim, a diversidade de gente. Uma capital que concentra 11 milhões de pessoas é muito mais colorida, plural e estimulante. Nela, a individualidade é mais possível de florescer. Existe um sentimento paradoxal que, na coletividade diversa me sinto menos isolado na minha esquisitice andrógina, ao mesmo tempo em que a solidão também é uma constante quando se está longe da família e de alguns amigos.

Ao me ver no interior e tão desprovido de mim mesmo, de quem eu tinha lutado tanto e conquistado ser na cidade grande, soube que precisaria voltar. Então, depois de alguns meses vivendo na minha cidade natal, cortei o cordão umbilical e voltei à selva de pedra.

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