Diário

Era cilada: boy com mão de Barbie

November 10, 2017

Existe uma série de jogos imaginários que brinco comigo mesmo, pra me distrair, quando estou no ônibus, a caminho do trabalho. Um deles, é uma espécie de Tinder hipotético: vejo homens na rua e os separo entre pros quais eu daria e quais eu recusaria. Critério básico é identificar aqueles com cara de que têm pegada, sabem ser safados na hora H e vêm com a tal malemolênica pra fazer gostoso. E entre tantas rodadas da brincadeira, sempre achei que tive faro apurado pra detectar os mais frouxos.

Foi assim até algum final de semana que passou. Ainda em casa, comecei a beber um pouco de vodka com suco pra relaxar, entrar no clima e ir me arrumando ao som da batida ritmada de “Mama”, de Jonas Blue. Banho tomado, make feita e bolsa na mão, fui pro date. Cheguei ao bar e logo vi o boy. Ele era bonitinho, assim como nas fotos que eu tinha recebido no Hornet. Sentei, pedimos uma cerveja e o papo rolou. Não teve aquele silêncio constrangedor, típico do primeiro encontro e que faz o desconforto interno crescer mais que um Gremilin. Era o álcool me fazendo falar sem parar e gesticular como se a expansividade me fosse inata. Ele frequentava as mesmas baladas que eu, também trabalhava com comunicação e tinha algumas opiniões similares. Em outras palavras, as chances de rolar eram altas. E rolou. Nos beijamos e, antes de pedir a terceira garrafa, viemos ao meu apartamento.

À meia luz e com qualquer coisa passando na tv, começamos a nos pegar. Ou melhor, ele começou a me alisar, apenas. Por mais intenso que meus beijos ficassem, por mais forte que minhas mãos segurassem o rosto e os ombros dele, ou por mais pressão que eu fizesse com meu corpo contra o dele, eu não era agarrado com firmeza. Finalmente, eu estava cara a cara com um dos meus maiores medos: ficar com alguém sem pegada. Zero. A mão do rapaz era tão imóvel e espalmada quanto a de uma Barbie, de plástico, que sequer segura a própria bolsinha. Era como falar em um telefone mudo, sem retorno algum. Não tinha jeito de fazê-lo me pegar com vontade e me apertar com tesão. Comecei a culpar mentalmente o meu esquenta em casa, com aquela vodka do comecinho do texto. Era ela que tinha me impedido de ver sinais, indícios de que aquele rapaz não tinha fibra.

Fiquei sem ter saída, a não ser terminar aquela noite pra ver se ele ia logo embora. Mas mesmo depois de finalizarmos, o cara ficou enrolando, à espera de um convite pra passar a noite. Me fiz de desentendido e perguntei que horas ele tinha que acordar na manhã seguinte. Até que o Uber veio e meu pesadelo acabou.

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2 Comments

  • Reply Gustavo November 10, 2017 at 12:59 am

    Hahaha que péssima experiência, mas uma ótima história.
    E eu achava que o silencio constrangedor fosse coisa minha, por causa da minha timidez. Fico até mais aliviado em saber que acontece mesmo. 🙂

    • Reply Gui Takahashi November 10, 2017 at 7:38 am

      Opa, o silêncio sempre vem. Ele fica à espreita, esperando o momento certo de atacar e deixar o date esquisito. Quando isso acontece, sempre olho ao redor porque sei que alguém vai sacar que é o primeiro encontro pelo cheiro do silêncio-constrangedor típico.
      Bjo,
      -Gui

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