Diário, Estilo

Mais que um conjuntinho japonista

November 30, 2017

 

Por muito tempo me distanciei de roupas e acessórios que carregassem uma estética tipicamente oriental. Fiz isso em busca de ser visto de um jeito individual, na tentativa de evitar ser arremessado a um rótulo esteriotipado por conta da minha etnia. Aqui no Brasil, prega-se que japoneses são todos iguais: nerds, inibidos, dedicados, dóceis, passivos e sentimentalmente frios. Assim, logo passei a rejeitar o esteriótipo porque ele é preconceituoso, como qualquer tipo de generalização; ainda mais aplicada a um grupo racial. Pra ajudar, a falta de representatividade, até hoje, consolida a ignorância. E eu, ainda jovem – sem saber exatamente quem era – não queria vestir uma carapuça que não fosse a minha.

Somado a isso, sentia um conflito interno muito grande entre minha identidade de gênero (não-binária), minha orientação sexual (gay) e minha ascendência. Por vir de uma família tradicional e conservadora que reproduzia vários dogmas sexistas e machistas do Japão pós-guerra, havia um desconforto persistente em mim. Era como se eu não merecesse ser japonês, já que ser uma bicha pintosa era motivo de vergonha. Como consequência, eu me rejeitava e fugia da minha própria raça, como não fosse digno daquele pertencimento. Em outras palavras, eu me exilei de ser oriental.

Mas, com o tempo, veio a aceitação da minha família e, aos poucos, me vi me reaproximando dessa sensação de fazer parte de um grupo étnico. Começou a florescer um interesse em saber sobre minhas raízes e tudo o que vem com ela quando se é neto de imigrantes. E nessa descoberta de mim mesmo, também fui desenterrando os desconfortos que sempre senti. Até que uma amiga me sugeriu acompanhar o grupo Asiáticos pela Diversidade, no Facebook. Nele, encontrei nomes pros inúmeros incômodos que sentia, encontrei clareza pra enxergar o preconceito escondido em tom de brincadeiras, e encontrei acolhimento em meio a pessoas que também passavam por situações similares. Então, comecei a ressignificar meu olhos puxados e me vi mais confortável que nunca dentro da minha pele amarela.

Por isso, as fotos daqui são mais que de um look fashionista com conjunto estampado de garças “tsuru”. Elas fazem parte de uma jornada de redescoberta. Fazem parte também de uma bicha japonesa se reapropriando do japonismo e do exotismo que sempre lhe foi aplicado.

 

Blazer: Aliexpress;
Calça Pantalona: Lucy in the Sky;
Camiseta: Luigi Bertolli;
Botas: Vizzano;
Bolsa: Corello.

Fotos: Gus Takahashi

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